Largar a Cruz

3 abril 2015, Comentários 0

Bosch_Cristo_01É Sexta-Feira Santa. Sexta-feira da paixão. Aniversário da crucificação do Cristo Jesus. Crendo-se ou não no Cristo, na história ou no mito, fica disto o dito: “cada um que carregue sua cruz.” Crendo-se ou não, cada um carrega-se a si próprio, aos seus erros durante a vida. Inegavelmente cheia de erros, de tentativas frustradas, de acasos e encontros que resultam em dor enquanto – na minha opinião – deveriam resultar em conclusões e perguntas.

Se não tenho que carregar minha cruz, porque não tenho culpa, porque não carrego nada, porque perdoei, já a mim e a todos, me sinto leve, e vou adiante, leve e sem culpa.

Mas em mim já nasce a vontade de ir até os outros que não conseguem largar suas cruzes e pôr meu ombro sob as cruzes deles porque eles não entendem – por mais que eu faça/diga/seja. E se eles carregam uma cruz eu não quero que eles sintam o peso todo – somos um, não?

O peso nas costas do meu irmão – do meu irmão enganado, iludido, perdido – seja lá que julgamento caia sobre ele – também vai pesar nas minhas costas.

Àqueles que pensam que ‘metade da humanidade vai ser salva e a outra ficará pra trás’ eu respondo: vai ser preciso escolher? Alguém quer deixar seu irmão pra trás? Alguém quer encurtar o tempo de redenção – e se só faltasse um dia para ele perceber que está livre?

Àqueles que acreditam no mal e na separação dos bons – querem estar entre os bons? Quem vai cuidar dos maus? Quem vai clarear sua confusão e reorientar quando estiverem no escuro?

Se eu hoje largo uma cruz posso carregar meu irmão – enquanto for preciso.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.