Lance e siga sua flecha!

19 outubro 2014, Comentários 0

arqueiroNenhum de nós gosta de manter pendências. A gente suporta. A gente até administra bem as pendências – há pendências, afinal, que são confortáveis. Nos dão a sensação de poder decidir mais tarde, e assim, vamos empurrando com a barriga. Mas elas perturbam, porque o que não está acabado e resolvido, fica como criança se pendurando na gente e pedindo a cada pouco a nossa atenção.

Terminar as coisas dá uma sensação incomparável de tranquilidade. Não existe mais meta aparente. Não existe mais pilhas de avisos, não existe mais nada! Você olha para frente e o tempo é seu, para decidir fazer o que quiser.

Quando a gente é jovem os empreendimentos são curtos e de pouca responsabilidade – e é assim que deve ser, mesmo. Estamos treinando! Aí temos um mês para entregar um trabalho e sofremos, mesmo que de fato ele nos exija menos de meia hora de dedicação. E, sabe por quê? Porque nos enrolamos e nos enrolamos até que o prazo fique curto demais, ou perdemos a atenção necessária até que a tarefa fique difícil de ser percebida com serenidade e que enfim não haja mais sossego para entregá-la.

Mas nós a entregamos – quase sempre – eventualmente faltando algumas partes. Teremos então uma avaliação, boa ou não tão favorável, mas é só um treino – um treino de escola. Alguém lá fora estabelece a tarefa, o prazo, as regras. E avalia.

Depois somos adultos, teremos um prazo de um ano, cinco, dez anos para terminar um projeto – lidaremos com dinheiro, com pessoal, com materiais.  E devemos ter aprendido a lidar com todas as variáveis de prazo, com todos os limites que fomos conhecendo desde nossa juventude.

Muitas vezes, porém, adquirimos uma única vantagem sobre o tempo em que o professor nos determinava o que devíamos fazer. Hoje temos a chance de dizer que não vamos fazer: “Não vou conseguir e portanto não vou empreender esta jornada.”

Esquecemo-nos do que é a sensação da conquista de poder dizer: “Fim! Consegui! Terminei!”

Esquecemo-nos de que o resto da vida será preenchido simplesmente de ‘atividades de treinamento’.

Vá até o fim! Cumpra sua meta! Disponha-se a seguir o curso do trabalho até o último dia. Até a “avaliação final.” E no final descubra que de fato o que importa é que a avaliação deve ser sua. Isto é uma grande conquista da vida adulta. No entanto, se você não puder fizer uma boa avaliação de si mesmo também você não vai se sentir bem. É preciso bater as próprias metas.

E de fato você está ansioso por conquistar sua própria aprovação. A cada passo que damos nós fechamos uma meta interior – de grandeza, de heroísmo, de dignidade. Sermos indignos diante de nós mesmos é a pior das situações. E hoje em dia isto está quase virando moda! As pessoas simplesmente não se dão a chance de conquistar. Ou temos que prestar contas para uma chefia que estabeleceu todas as metas – resulta que eu mesmo não tenho nenhuma responsabilidade nisso. Ou temos que dar conta de uma tarefa que não corresponde a nosso próprio ideal – vai-se assim embora a própria liberdade.

Vamos envelhecendo e ficamos com alguma coisa presa na nossa juventude. Um hábito de depender de um outro, de que ele diga o que deve ser feito, e de que ele avalie. Não construímos em nós paciência nem perseverança. Não construímos em nós humildade suficiente para tolerar que não cumprimos tudo a cem por cento.

Mas onde é que fica o adulto? Fica esperando que venha o chefe de seção, que venha o gerente, que venha o engenheiro, que venha a autoridade, porque o próprio adulto não manda em si mesmo, não consegue agir por sua própria conta e nem ambiciona mais contar como seu os créditos de ter cumprido sua própria meta.

Baixamos nossas cabeças diante do desafio que é fazer o mundo caminhar para frente. Somos hoje um apanhado de vítimas. Sentimos que trabalhamos demais, que nos cobram demais, que nada rende o que devia, somos explorados …

E não conseguimos contabilizar para nós mesmos nenhuma conquista. As tarefas nunca acabam. O tempo sempre é curto. O dinheiro nunca é suficiente. Nunca somos competentes o bastante. E aí nós paramos com medo de tudo, de dar o próximo passo, e de nos descobrirmos gente grande e capaz.

Lance e siga sua própria flecha. É disso que o mundo está precisando.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.