Judas e o Amor

18 outubro 2013, Comentários 2

Caravaggio_-_Taking_of_ChristQuem soube da história da traição de Jesus e não quis malhar o Judas? Desgraçado! Como pode estar perto do ser mais sublime e entregá-lo para os leões? Como?

No entanto não fosse isso a história no Gólgota não se teria cumprido, não haveria nada. Todo o sofrimento e tal, todo o grandíssimo ato de perdão, todo o resgate, nada disso teria acontecido. Aí eu preciso dizer: é preciso agradecer ao Judas. Agradecer porque abriu as portas para o fluxo do cristianismo que veio depois.

Está bem, eu preciso admitir que no olhar de muitos estudiosos, Judas nem existiu. Muitos espiritualistas nem admitem a vinda do Cristo. Muitos cristãos vão querer malhar a mim por agradecer ao Judas, mas é real: sem ele não haveria a potência da qual a gente se aproveita até agora.

Agora, vocês acham que o Judas era um bocó? Que era um aproveitador dinheirista que vendeu-se por 30 moedas? honestamente, só de estar ao lado de Jesus naquela época as células do corpo da pessoa inteirinha deviam ressoar Hosanas e se purificar até no último pensamento. O Judas que ficava dentro da aura de Jesus, logo ele estar assim impuro? Ainda que fosse impuro todo este tanto, ele iria estar entre os 12 escolhidos? Um impuro? Um bocó? É impossível acreditar nisso!

Eu acredito que Judas era muito sabido, mas muito sabido mesmo. E acredito que aceitou a proposta de abrir as portas da desgraça para Jesus Cristo mesmo sabendo do tamanho do carma que viria cair sobre as costas dele. E caiu e que intensamente e ritmicamente é reiterado desde sempre.

Eu não sei se vocês já tiveram a experiência de ser execrados, maltratados, malfalados, e tudo o mais. Isto pesa muito. Chega uma hora que você está já concordando com tudo o que disseram sobre você só para parar de ouvir a reverberação da voz que te acusa. Sendo você um criminoso ou não. Ética? Você senta de costas para a ética e assina qualquer papel que te livre da prisão das acusações. Mas um dia tudo passa. Sempre passa.

Nem a vida da gente é tão longa ou a gente tão interessante que mereça esta atenção durante tanto tempo assim, mas veja: o Judas é malhado até hoje. E são muitos os lugares em que se evoca o nome desse sujeito, se faz um boneco – pensou em Vudu? Pois é! – e se faz ritmicamente durante quase dois mil anos a malhação do Judas.

Pode ser que haja diversas modalidades de malhar o Judas: entra pedra, entra pau, entra fogo, até. Já soube de gente que atrela o Judas no lombo de um animal e quando se o vê passar, se malha de longe: é tiro, é facada, é flecha! O Euclides da Cunha conta da malhação entre os nortistas, diz que eles põe o Judas numa balsa no rio e ele vai sendo malhado por habitantes das quantas vilas pelas quais passar. É medonho!

Agora, pense momentos antes de ele fazer a tal ‘traição’. Imagino que ele tenha tido um vislumbre do peso que carregaria, não por dias ou anos, mas por milhares de anos sobre a sua cabeça. Mas ele tinha que cumprir o acordo. Se ele não podia fazer um sacrifício do tamanho que fez Jesus, do tamanho que fez o Cristo, ele fez um enorme, também, e acredito que fez conscientemente, avisado, para que pudesse haver uma representação da outra polaridade ao Cristo.

E o Cristo pregava o amor e o perdão. Não conheço Cristão que consiga dizer que ama o Judas de peito aberto. Nenhum que tenha pensado em perdoá-lo. Agora isso é urgente.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    Sem dúvida Judas tornou-se o símbolo universal de traição. Perdoar ainda é uma virtude a ser conquistada. Amar os que nos amam é fácil. Perdoar os que consideramos inimigos é uma atitude de esforço para superar a arraigada “Lei de Talião” . Dente por dente; olho por olho.

  • Lilica

    vide “O vôo da serpente emplumada” de

    Armando Cosani.