Jogo de espelhos

13 outubro 2014, Comentários 2

espelho05Você também se exaspera com a falta de consideração dos outros? Coisas assim como cortarem uma fila em que todo mundo fica um tempão esperando; ou um sujeito que trafega na pista paralela a sua e que se atravessa passando a frente de todos os que ficaram na pista obrigatória; ou outro que espalha uma notícia mentirosa… Enfim, há coisas maiores: temos exemplos fresquinhos que a gente pode exemplificar na política, mesmo, por conta da época das eleições: corrupção, senvergonhices, ficar imaginando como um sujeito cujo helicóptero foi flagrado carregando drogas tem coragem de se propor a fazer serviço público, e muitos, infelizmente muitos outros casos de corrupção e impunidade que a gente fica embasbacado.

No entanto a gente deveria dar um passo para trás e se olhar no espelho. Estamos todos no meio do caminho. As virtudes estão na lista das conquistas a serem feitas e não fazem parte do nosso hábito. Somos nós que mentimos que não estamos em casa, que deixamos de pagar o cartão do estacionamento, que burlamos o imposto de renda.

Não quero dizer que concordo com tudo o que nos é imposto, mas concordar ou discordar não tem nada a ver com o cumprimento ou não das leis a que estamos submetidos. Elas poderão ser revogadas. Nós mesmos podemos legitimamente fazer um esforço para isso, mas simplesmente deixar que os outros sejam lesados é uma irresponsabilidade.

Mas somos nós mesmos que fazemos estas coisas.

Sem querer colocar o chicote no lombo de ninguém, gostaria de lembrar como temos que ser pacientes – conosco, porque estamos nos desenvolvendo rumo a um estado de virtude – honestidade, lealdade, etc, – e com os outros, porque se nós podemos esperar mais uma semana para cumprir nossas promessas a nós mesmos: de limpar o carro, de varrer a calçada, de pagar aquela dívida… temos que ter a mesmíssima paciência com os outros.

E não adianta você dizer: “eu nunca roubei, portanto ninguém pode roubar, eu só menti umas duas ou três vezes…” Não se trata de cobrar na mesma medida. Quem sabe o ladrão não minta e pudesse te cobrar o contrário!

A questão é que estamos no meio do caminho como humanidade. Não sabemos nos controlar. Não temos uma sensação de longo prazo nem mesmo a clareza da responsabilidade ou da consequência. Penso que ‘se esta desgraça tivesse acontecido com a vizinha, pelo menos!’, ou ainda ir acudir apavorado uma pessoa que sofreu um acidente na rua pensando que é seu filho e se aliviar só de ver que não era…

Somos assim. Nosso sofrimento e nossas angústias só doem se estiverem dentro da nossa casa, dentro da nossa família, dentro da nossa roupa. Nem nos imaginamos parte de um grupo que precisa desesperadamente de compaixão para poder dar o próximo passo.

Talvez fosse hora de acordar para isso. Acordar para o fato de que minha cobrança com o outro, dura e crítica teria que ter a mesma medida da cobrança que faço comigo mesmo. Minha tolerância com minha indolência, com minha preguiça, com minha irresponsabilidade deveria se estender a todas as pessoas que eu conheço. Não importa a medida da ofensa que te impõe.

Seria fantástico se tivéssemos a oportunidade de entrar em um mundo de espelhos no qual recebêssemos diretamente e evidentemente tudo o que lançamos para o mundo. Seria maravilhoso! Daí teríamos a exata medida da dor que os outros sentem por sermos como somos, sentiríamos precisamente a pancada das nossas palavras, dos nossos pensamentos e das nossas ações e isso seria de algum modo perfeito para conseguirmos relevar a fraqueza moral nos outros.

Talvez a gente esteja já neste mundo de espelhos. Talvez a gente esteja apenas vendado e não tenha muita clareza disso.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Na realidade estamos iludidos o tempo todo, seja no que diz respeito a nós mesmos ou aos outros.

    Vejo que boa parte dos problemas pode ser resolvida dando atenção a palavra aceitação.

    Aceitar a ilusão, aceitar o outro, aceitar a si mesmo, aceitar o tempo de tudo e viver apenas treinando essa percepção.

    • Deriana Miranda

      Eu não acredito que nenhuma das coisas que nos cerca seja ilusão. São modos de manifestação do que é uno, mas nunca ilusão. Tudo tem a perfeita medida, tudo traz a mensagem correta. É preciso, sim, aceitar tudo, e despertar, eu acho. Obrigada, Marcos, pela colaboração.