Janela no Tempo

6 outubro 2013, Comentários 0

dali2Descobri que a única coisa que nos faz presos na data de hoje é a surdez. Sim, se fôssemos capazes de ouvir seríamos capazes de fazer das nossas vidas caminhos muito mais acertados e muito menos doentios. Nós não sofreríamos tanto com as perdas e seríamos capazes de ter prazer com as conquistas de todas as outras pessoas.

Sabe quando o pai da gente diz assim: “se eu fosse você, eu não faria isso…” Mas a gente ouve isto como um desafio, não como um aviso. A gente ouve como se a gente estivesse sendo posto a prova, e que, ao invés de deixar de fazer o que o pai avisa que não faria, você tem que fazer. Mas para provar o quê?

Minha desconfiança é de que a gente quer provar que é outra pessoa. “Outra pessoa que toma outras decisões e que tem tanta liberdade que não precisa ouvir os conselhos de ninguém.” E é aí que a gente escorrega. É bem nesta afirmação que a gente perde às vezes um, ou as vezes dez anos da própria vida investindo em furadas.

Claro, ninguém quer admitir que justo o pai tinha razão. Ou o avó, a avó, ou a tia. Como assim dar a autoridade – que na verdade a gente nem mesmo conquistou para si – para esta outra pessoa que é um velho decrépito que só tem o passado para se apoiar.

Pois bem. Se a gente conseguisse se apossar do passado das outras pessoas para se apoiar a gente teria vidas muito mais interessantes. Seríamos capazes de administrar nossas relações com muito mais prudência e sabedoria. Seríamos capazes de administrar nosso dinheiro com mais eficiência, teríamos menos doenças e viveríamos com mais tranquilidade.

Seríamos velhos Matusalém em corpos de 20, 30 ou 40 anos. Teríamos capacidade de viver em grande harmonia. Mas isto não acontece. Somos turrões porque queremos ter a autoria da nossa vida desde sempre. E se somos capazes de ouvir um ou outro conselho fingimos que não o fizemos e daí para diante usamos tampões nos ouvidos. Somos ‘indivíduos’, por mais que a história exista, por mais que as pessoas possam amar tanto a gente que ofereçam a própria vida em sacrifício – vivendo antes de nós e mostrando as coisas boas e as porcarias que já andaram fazendo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.