Inventar a roda

14 maio 2013, Comentários 0

Porteador con cesta a la espaldaVamos fazer cestas no liceu. A ideia inicial da oficina era a de serem feitas apenas cadeiras em palha. Duas técnicas: austríaca e caipira – ou portuguesa, como alguns conhecem. Acho uma delícia fazer tramas, estruturar o desenho, cuidar da tensão, etc. Gosto de lidar com as fibras naturais, de sentir sua maciez, sua aspereza, sua firmeza. Cheguei a um ponto que enxergo o valor de se lidar com as fibras sintéticas no sentido de elas não bicharem ou apodrecerem. Enfim, para os fins a que se destinam eu concebo seu uso, e gosto de produzir os assentos e os encostos.

Mas o que é curioso é que quando abrimos portas entram novas ideias. Existe a possibilidade de se enrijecer na primeira ideia ou de se abrir para esta nova que se anuncia. E o que veio é fazer cestas. Ficamos entusiasmadas com esta nova proposta. A cesta é uma obra de engenharia ancestral – olhar de gente que faz cesta por arte e não pela prática, eu acho, olhar intelectual. Enfim, há a produção e o uso de cestas em todos os continentes. Onde apareceu fibra houve a ideia da trama, que muitas vezes serviu para fazer cestas. E o uso da cesta é amplíssimo! Entra pela casa toda. Para fazer adorno, talvez, mas muito mais para o serviço: do berço à feira, da estocagem a carga.

Então, conversamos animadas sobre a feitura das cestas. Mas fazer cesta para a gente era ir a Morretes comprar cipó, montar a cesta e pronto! Quando não vamos a Morretes vamos à loja e compramos rami, ou sisal e mãos à obra! Mas estamos trabalhando em um sítio. ‘Lá atrás tem taquara, e bambu-luá’. Ah, não, a gente tinha que fazer as cestas com o material do sítio! Já pensou que honra? Todo este material e a gente pode colher na lua certa, e abrir em tiras, e montar e trançar e fazer as cestas de um material que a gente mesma colheu!

Uma cesta leva umas duas horas para fazer. Muitas vezes, bem mais que duas horas. São duas horas quando o material está limpo enovelado do seu lado. Mas quando você vai colher a taquara na chácara as horas vão se multiplicando. A gente tem muito mais chances de se cortar com a fibra da taquara, de se machucar com a dureza das ferramentas. Talvez qualquer um possa fazer uma cesta, mas ninguém faz ideia do que é ir na raiz do que é a cesta: mistura de estrutura com amarração, de força com esperteza. Encontrar a fibra resistente o suficiente, a vara flexível, o tempo certo de colhê-la…

Todo este exercício cansativo nos fez rir, arrebentar as fibras, arrebentar as mãos! E isto porque não queríamos ir à loja, mas queríamos fazer as coisas desde o começo. O começo de que nós não participamos, porque não estávamos vivas ainda. Queríamos ser testemunhas da primeira ideia sobre as coisas, sobre todas as coisas, olhar nos olhos do primeiro sujeito que percebeu que os movimentos poderiam fazer das fibras panos, de galhos e cipós, as cestas.

Queríamos participar do invento da roda! E devo confessar que fico feliz de ver que a gente quisesse e fiquei tentando descobrir o porquê. A verdade é que queríamos inventar a roda para poder compartilhar do mérito do invento. Tão fantástico! Isto me alegrou porque esta é uma força incrivelmente poderosa de educação: permitir que se consiga acessar o pensamento que permite a materialização de uma forma, o pensamento gerador de um engenho, de um costume, de qualquer coisa que o homem concebe. Era isso que a gente queria e é isso que talvez seja a chave para conseguirmos libertar as pessoas da descrença em si mesmos. Somos capazes de qualquer coisa! Todos somos capazes, porque os pensamentos estão empoleirados a nossa volta, a espera de que os visitemos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.