A Intransigência

1 maio 2014, Comentários 0

menina-carrega-pedrasNão há dúvida que ficamos frouxos. Qualquer um que compare a vida dos seus avós ou bisavós à sua própria vai ter que reconhecer que não tem metade da fibra que eles tiveram: eram tempos em que não se abria a torneira e se tinha água na pia. E você reclama de ter que lavar a louça!

Banho? Quem dera aproveitar um banho diário – ou quente. Nada disso. Há um século e meio atrás quem tomava banho diário e quente era bem rico. O resto, se quisesse podia usar um paninho. Percebeu a distância entre isto e o seu conforto?

E roupas? Era fazer roupas. Sim, criar bichos que tivessem lã, cultivar fibras que pudessem ser tecidas. E tosquiar, lavar, cardar, fiar e tecer, claro! Não é assim que você tenha uma blusa só porque cria uma ovelha.

Comida tinha que plantar bastante em casa. Fazer queijo e para tanto ter vacas. Quem não tinha? Pois é!

Eletricidade nem era sonho. Telefone, ninguém cogitava. Portanto a relação que a gente tem com a ideia de comunicação era totalmente diferente. As pessoas tinham que se relacionar de verdade e contar com a palavra dos outros – se não entravam em dificuldade.

Para fazer uma casa era preciso ir mato adentro – sozinho? nem pensar! Então as casas eram feitas entre famílias que abatiam árvores que seria preciso tratar com todo carinho e muitíssima força para não perder material e transformá-las em tábuas e deixá-las secar para então levantar paredes. Ninguém nem tinha como não saber fazer as coisas. Que não sabia não vivia.

Sim, eu sei, já tínhamos passado das revoluções. Já havia indústria, desde o Renascimento já havia fábricas de tecidos. Eu sei.

Mas estou falando da gente que não tinha acesso a produção destes materiais, entende? Gente que tinha couve no quintal que temperava com uma rodela de linguiça, mandioca e água para fazer render em uma açorda que desse para a família.

Não estou falando de quem tinha empregados e carro e morava em grandes mansões. Isso não faz parte da história da minha família, pelo menos, e das histórias que me lembro de avós e bisavós, era tudo na base do machado, fogão de lenha e farinha de mandioca.

Você pode imaginar que isso fosse a pobreza. Não era. Pobreza passavam os que não sabiam plantar ou tecer. Os que já não tinham força ou família para se apoiar.

Mas eu lembro de tudo isso comparando com a vida mansa que eu levo hoje. Que você também leva e de que a maioria de nós mal se apercebe. Afrouxamos. Não temos mais o tônus muscular da nossa avó que morreu com mais de 80 anos e lúcida. Somos fracos nos membros e na alma. Não temos mais certezas – não estou dizendo que a certeza do seu avô era a verdade, mas lembro a você que ele era firme. Que tinha ideais, que levava a peito a vida e que você não tem a mesma coragem.

Não! Não estou te acusando de nada. Estamos no mesmo barco. Mas você recorda que a firmeza do seu pai era maior que a sua. Você é frouxo com seu filho, com sua palavra, com sua disciplina. Perdemos muito porque nossa vida está fofa e doce. Vivemos em um mundo coberto de espuma e açúcar. Mamamos nosso leitinho e torcemos o nariz para uma salada de radicci.

Lembro disso porque quero justificar a sua repentina intransigência. Você faz bem. É preciso cuidar. Antigamente quando tinha linguiça em casa tinha que comer. No entanto hoje a fartura na nossa mesa é tanta que em um churrasco uma pessoa come mais de dez linguiças.

É preciso mesmo por freio nesta fartura – e não há de vir pela falta de dinheiro. Há de vir pela demanda da ética. É sim, preciso comer orgânicos, ser vegetariano, usar roupas sem a mácula da escravidão, separar o lixo, frear o gasto da água, brigar pela igualdade social. Você tem razão pela sua intransigência. Tem gente na esquina morrendo de fome, de sede, de doenças que você nunca vai nem ouvir falar. Tem gente que não tem água nenhuma e sequer de-comer que baste.

Já não cabe mais a tortura e a dor – de nenhum ser humano ou nenhum outro ser. É preciso reconhecer a brutalidade e acabar com ela. Já não cabe mais explorar o empregado, ou fingir que não viu. É preciso reconquistar a firmeza da carne e da alma para que se possa avançar para o espírito. A frouxidão nos torna gelatina. É preciso disciplina para dar sentido a este momento privilegiado em que vivemos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.