A Herança

10 março 2014, Comentários 0

music_lesson lord FrederickTem um apelo tão grande para que a gente se torne alguma coisa. Assisto penalizada ao caminho dos nossos adolescentes: encontram-se entalados entre a realização do ‘Ser humano pleno e original’ e o ‘ser alguém na vida’ que o sistema propõe. Fica o adolescente entalado entre o que sente queimar dentro de suas entranhas – uma fome da verdade, do conhecimento real, a fome pelo ideal maior, pelo caminho perfeito, pela cura de todo o mal, pela reforma desse nosso mundo seco e injusto; e do outro lado a urgência em de ganhar dinheiro, de ser reconhecido: fazemos um ensino médio intelectualista que fundamentalmente termina na alienação da pessoa daquilo para o que se vem constituído desde toda a sua existência inteira. E ele vai se tornar um especialista em cálculos de coisas que não o interessam, ele vai dedicar as horas brilhantes dos anos de transformação para conhecer como se respondem às questões do vestibular ou do teste de saída do ensino médio e se evadir na superficialidade daquilo que preenche o tempo, mas não o coração.

Ah, e se não passar nos testes, dedicamos mais um ano a esses estudos – carregamos então nossa autorreprovação e pensar o que falta e ter respostas como ‘zerei em biologia’! A fome roendo a pessoa por dentro e a gente tentando passar nos testes para sermos engenheiros, advogados e médicos tradicionais. Precisamos assegurar um salário alto, manter o padrão da família, da nossa classe. E aquilo que vem de dentro com tanta força vai sendo aplacado com os tais ideais do sistema e do mercado.

Nós, os adultos, fazemos isso do nosso futuro! Ansiamos por um herói que nos salve do abismo que cavamos logo a frente e condenamos nossos filhos a repetir o caminho pelo qual nós nos desviamos. E por quê? Porque é seguro? É a segurança que a gente almeja: controlar o caminho e saber de onde e para onde vamos. Como já vivemos um caminho – ainda que ele seja ruim, obrigamos nossos filhos a vivê-lo da mesma forma.

E vamos nos propor compensações para aquilo que nos frustra: vamos pintar as unhas, entrar em um clube, fazer academia. Vamos ler os intermináveis romances de fantasia que jamais vão-se acabar. Vamos nos envolver em relacionamentos fadados a se exaurir desde o primeiro impulso. Vamos à igrejas e defender ideias, e vamos envelhecendo no consumo da nossa memória do que deveríamos fazer.

No começo vamos ter pesadelos com uma sensação de perda, daí de vertigem; depois teremos incômodos mais ou menos conscientes cada vez que formos contra nossos talentos naturais, mas eles se tornarão inconscientes, logo serão como uma dor de cabeça suportável e por ela tomaremos analgésicos. Analgésicos nos acolchoarão casamentos ruins com pessoas insatisfeitas de nos terem escolhido. Acolchoarão nossos empregos toleráveis onde afinal ganhamos um salário que nos sustenta uma vida áspera e amarga na qual colocamos catchup para engolir.

Assistiremos a telejornais esconjurando os malfeitores que agridem a terra, que cometem violências. Comemoraremos a condenação dos políticos corruptos que nos roubam o dinheiro dos impostos. Isto enquanto pagamos um contador que nos consiga desviar os impostos para que nós mesmos consigamos fugir do leão. Teremos por fim uma úlcera, um câncer, uma dor de dentes, enxaqueca crônica, bursite, inflamação no nervo ciático. Teremos alergia a todas as coisas possíveis e tomaremos de novo e de novo remédios que aplaquem o incômodo da vida toda.

Seremos parte de uma linhagem interminável de pessoas que se ajustaram perfeitamente ao sistema, que secaram por dentro, que calaram a voz que gritava dentro de nós. E tem esse apelo tão grande para que a gente se torne de fato alguma coisa. Deveríamos ouvi-lo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.