Grito por liberdade

19 junho 2013, Comentários 0

delacroix_liberteÉ bonito ver o povo gritando na rua por liberdade. Sentimo-nos aprisionados, afinal. Somos mordidos por taxas exorbitantes de impostos que não aparecem evidentes em serviços. Somos aviltados por sistemas de transporte desconfortáveis e ineficientes além de caros demais. Somos postos em filas para atendimentos públicos demorados e falhos. A saúde pública tornou-se indigna de confiança em quase todo lugar.

Há desmandos por toda a parte. Há incoerências, há um enorme descompasso entre o que já se conhece e aprecia socialmente com decisões absurdas que parecem obras de meio século atrás, de tempos de ditadura, de tempos de ignorância. Os políticos – ainda que sejam revolucionários a princípio – terminam atados pelas garras do dinheiro dos empresários que os chantageiam e impedem que se faça tudo o que tinha sido projetado. Fica difícil respirar neste sistema. É sufocante.

E de tempos em tempos um infeliz termina por soltar aquela: ‘Não tem pão? Comam brioches!’ E o povo, que não aguenta mais, vira o mundo do avesso. Quebra tudo. Finalmente, o sistema abraça os pleitos antigos, tudo volta a calma e – infelizmente! alguém na ordem nova acha um modo de se aproveitar das novas brechas. Há manipulação das forças. Oportunidades de estragar o caminho. No fim alguém descobre meios de exploração do trabalho e da terra e tudo começa novamente… até a próxima revolução.

Talvez a gente não devesse lamentar por isto. Talvez seja o preço que se pague para o despertamento. É preciso reconhecer que se eu sou capaz de pagar uma clínica particular para o meu filho, ainda que seja com muito esforço, eu posso muito mais que um outro brasileiro cuja renda não permita nem cogitar um tal esforço. Eu preciso saber que ainda que eu pague somente 50% da mensalidade escolar de uma escola particular, há gente que nunca poderá pisar nesta escola. E isto é uma condenação bem mais longa do que os anos de estudo. Muito mais do que isto, o destino todo de uma criança de escola pública se afasta daquele de quem pode frequentar uma escola privada. Isto porque nossa escola está sucateada, como quase tudo o mais.

De repente, porém, as pessoas começam a perceber que não é tanto no próprio orçamento que vai fazer diferença o preço do ônibus. Trata-se de um olhar mais largo que abriga também o modo de sobrevivência dos outros. E isto é nobre. Eu sonho com Gandhi. É ingênuo pensar que ele nasceu pacifista e pronto. Não foi assim. Foram anos de árdua auto-educação. É preciso ter coragem para tornar-se um Gandhi. É preciso ter sentido a liberdade, já. E não estar brigando por uma ideia do que ela seja.

Penso que o mundo todo convulsiona em protestos. O Brasil inteiro se levanta para exigir direitos. No meio do protesto contra o preço alto do transporte público, há os ciclistas – eles não pagam a tarifa, estão lá pelos outros. No meio dos que brigam por melhores hospitais há os que não os usam por opção, por confiarem em um sistema de saúde antigo e caseiro não alopático. Há os que fizeram o parto de seus filhos em casa. No meio dos que brigam por melhores escolas há os que usam pedagogias alternativas e os que educam em casa.

Eu não tiro a razão de quem não vai aos protestos. Nem tiro a dos que vão. A questão é que o grito pela liberdade é mais ressonante quando é o grito pela liberdade dos outros. Quando eu mesmo já conquistei minha liberdade e não sou mais subordinado ao modo repressor de um sistema doente. Eu não posso ser também doente. Eu não compro o que a televisão me manda comprar. Eu não como a comida que me mandam comer. Eu não trabalho onde e quando mandam que eu trabalhe. Minha direção não vem de fora. Vem de dentro. Minha vida já é um grito pela liberdade e daí, sim, eu posso sair na rua pela liberdade dos outros.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.