Gratidão pela vida material

14 setembro 2013, Comentários 0

eu-quero-uma-casa-no-campoQuando a gente é criança a gente vem para um mundo pronto. Onde a gente pisa sentimos a mágica da eternidade – não questionamos nada das paredes que nos cercam, das janelas, dos materiais. Para nós tudo está ali desde o início dos tempos e é perene. Não suspeitamos nunca de segredo nenhum, de nenhum mistério que envolva nada a nossa volta. Mais interessante é que nunca questionamos o merecimento de todas estas coisas.

A casa onde a gente mora é um segredo absurdamente longo que exigiu dos seres humanos que vieram a terra antes de nós um esforço de vidas inteiras. Muitos seres humanos espalhados por todas as partes do mundo se envolveram na tecnologia que permite a gente sentar-se entre quatro paredes com um vaso sanitário com esgotamento automático, pia e chuveiro que trazem água, aquecimento a gás, espelho, porta com fechadura, janela de estrutura metálica com vidros, luz e tomada elétricas, cerâmica no chão, azulejo, e ainda a escova de dentes, a pasta, xampu, sabonete, sabe lá o que mais que a gente nem enxerga quando está, por exemplo, escovando os dentes.

Pense no resto da sua casa, pense no terreno e na fundação, nas fossas ou esgotos, os canos, os fios elétricos, os de telefone, os portões, e por aí vai.

Quando nascemos, nascemos já no berço da civilização humana inteira. Depois de todas estas descobertas cujos méritos podemos atribuir a alguns nomes, e outros a civilizações antigas e hábitos que se perdem na história.Todos os estágios de consciência que implicaram na nossa chegada seja lá onde for, e que nos disponibiliza tudo isso.

Está bem, mas se você nascesse numa tribo indígena. Não seja ingênuo! Você acha que não há tecnologia na oca onde você está? Não existe conquista nas tecelagens precisas da rede onde você dorme, na exaustão da fumaça da fogueira, no modo de fazer a fogueira que aquece, enfim, a humanidade está presente ali, também.

As coisas não dão testemunho em voz alta do mundo que se empenhou para que esteja ali tudo para te receber. No entanto você pode desfrutar de tudo e de tudo tirar proveito. E ainda há um outro patamar de colaboração humana que não se realiza no tempo: a tecnologia cultural que não se expressa nas tecelagens ou na arquitetura. Um agir e organizar-se que está em acordos anteriores de relacionamentos sociais e responsabilidades.

A participação na corrente humana pode deixar portas bem cortadas e fechaduras engenhosas. Pode resultar em um cuidado primoroso com as crianças ou em um talento especial para a cozinha. Na nossa biografia isto vai ser conquista, para a humanidade, vai haver incorporação e sumirá na nossa capacidade de absorver o esforço de todos.

Mas não perca a oportunidade de admirar o corte preciso da massa que fixa os vidros na sua janela, e com gratidão, porque há mais empenho nas coisas mais simples do que você pode desconfiar, e está todo mundo empenhado no seu bem estar, para que você, também possa colaborar com a realização humana.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.