A Graça dos Trilhos

3 fevereiro 2014, Comentários 0

trilhosVocê pode ser dessas pessoas que detestam rotina. Acha horrível a previsibilidade e se sente preso pela obrigação de cumprir tabela. Pois há uma graça na rotina que é a saúde. Comer e dormir sempre na mesma hora arruma o relógio biológico e você faz a digestão direito, não come demais ou de menos, não sente fome a horas estranhas e mantém o peso equilibrado. Dormir a mesma hora sempre também predispõe o corpo a relaxar àquela mesma hora e previne insônias e cansaço. Considerou fazer da vida um pouco mais quadrada com esta vantagem? Como todos os hábitos, programar-se para exercícios físicos diários ou algumas vezes por semana, programar-se para fazer arte ou meditação também vai apoiando o esforço enorme de se tornar disciplinado. Acredite, para qualquer coisa que você queira, metade do caminho está andado na conquista se se tornar um hábito da rotina.

E estabelecer rotina é um desafio para quem quer ser livre. Mães de família, principalmente são massacradas pela pecha de quererem tudo quadrado, do mesmo jeito e na mesma hora. Sempre a mesma coisa! Mas quem presta atenção vê na carinha dos filhos bochechas rosadas e saudáveis porque sempre a mesma hora acontecem as mesmas coisas. Os filhos nunca ficam ansiosos! Mas da mulher que impõe esta rotina se fala horrores – isto acaba com a espontaneidade!

Na adolescência se faz muito reclamar da previsibilidade e da ordem. Muitos adultos, vamos falar a verdade, também reclamam. Afinal todo mundo quer respeitar seu próprio ritmo, não? Fazer o que der na telha, enfim. Na adolescência, porém as pessoas ficam grandemente inseguras. Inseguras pelo que vai acontecer no dia seguinte, em um ciclo seguinte, talvez depois de cumprir com um teste, etc. E isto porque daí para frente não há mais trilhos!

É muito necessário largar os trilhos da nossa casa – o modo e a hora de comer, o horário de dormir, de tomar banho de brincar e de estudar. Eu diria que é mais do que necessário, é de fato essencial. Mas é indispensável ter trilhos para poder largá-los. A segurança está nos trilhos.

Mas não é só na adolescência que a gente abandona todas as regras e resolve ‘respeitar as próprias tendências’, ‘ouvir os ritmos internos’ – além de experimentar ir além do limite –  na vida adulta, em certas épocas da vida isto também acontece.

Lá pelas tantas você está bem estabilizado – casa boa, emprego bom, boa renda, família tranquila, saúde… Tudo funcionando como um reloginho. Tudo acontecendo como deve, como você mesmo quis que fosse, aliás, e você começa a perceber as coisas feito um adolescente. Onde foi parar a espontaneidade? Onde foi parar a leveza e o improviso? Está tudo endurecido e nos próximos anos vai acontecer exatamente a mesma coisa até a morte. Será possível?

Neste momento você vai ter que decidir se você vai segurar as coisas como estão ou se vai jogar tudo para o alto. Você vai ter que dar o passo adiante – e adiante pode significar se segurar com toda a força aos trilhos que você estabeleceu ou, bem ao contrário, se você vai arriscar descarrilar.

Claro, daí vem o medo – e não pense que somente medo do desconhecido. Nestas fases da vida em que você se sente incomodado com a rotina, você tem medo de estar se condenando justamente àquilo que você já conhece.

Mas descarrilar é um risco, não uma condenação. É possível construir novos caminhos ouvindo vozes interiores. É possível escolher talentos adormecidos e dar-lhes espaço. É possível vencer enrijecimentos e propor a si mesmo uma experiência nova, que conte com toda a vida anterior, que acolha tudo o que já se fez e floresça em outras cores.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.