Fundamentalistas e Materialistas

6 novembro 2013, Comentários 0

PitágorasTenho como um marco do insuportável na minha vida ouvir lá pelos 15 anos que eu fazia parte de um partido, dos ‘cegos do lado direito’, enquanto havia os ‘cegos do lado esquerdo’. Honestamente eu queria a completude, eu queria que alguém tivesse dito: há os cegos de lá e os cegos de cá e há os que vêem tudo. E eu queria me regozijar na crença de que eu era capaz de abranger tudo e reconhecer tudo. Não era assim. Nem agora, não é.

Vinte e cinco anos depois eu não consegui mais do que pesquisar o que acontece do outro lado. Eu sou muito curiosa e pedantemente quis me acercar do modo ‘tosco e falho’ com que eu achava que os outros olhavam o mundo. Foi como fechar o olho que via e pedir para alguém descrever como era do outro lado. Não tenho a capacidade de abandonar minha raiz!

Com o tempo, porém precisei admitir que se há partidos é porque a verdade se revela de maneiras diferentes, mas se a gente insistir coerentemente naquela ideia, a gente abrangerá tudo – com tempo e exercício – e perceberá que o outro lado era simplesmente o outro lado da moeda, e não um antagonismo essencial, uma mentira. Trata-se de mudança de método, não de conteúdo.

Gosto de lembrar da afirmação atribuida a Hermes, o Trimegisto: “aquilo que está em cima é igual ao que está embaixo” – sim, há outras versões para esta afirmação, mas o que me interessa é sua essência polar. Investigando, no fim, tudo é a mesma coisa. E isto é verificável naquele teorema de Pitágoras, por exemplo (a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa). Isto é aliviante!

Eu descobri que eu era fundamentalista. Que coisa! Detestei pensar assim: ora, agora não se pode achar que a imanência das coisas não nasce na genética, não nasce no meio, não nasce em nada palpável? Quer dizer que a gente não pode acreditar que tem alguma coisa mais completa, equilibrada, harmônica e sábia que gere tudo isso? Será que a grande matemática dos merecimentos e a tecelagem dos relacionamentos é tudo balela?

Ora eu me encolhia porque achava que minha incapacidade de estar do outro lado era um grave defeito, ora porque não conseguia achar um argumento isento e convincente de que eu estava certa. Pois é, depois de um tempo eu descobri que nem eu precisava esconder este meu ‘defeito grave’ da parcialidade, por um lado, nem tampouco eu precisava me bater com as pessoas para provar minhas razões.

Individualmente não se opõem os fundamentalistas dos materialistas em serem bons ou ruins. Isto é pessoal e mora em cada ação. A ação é um resultado palpável que deixa um registro no tempo e que vai influenciar a evolução da humanidade e da Terra de alguma maneira. Não se garante uma boa ação sendo fundamentalista ou sendo materialista, como também não há garantia de produção do mal porque no fundo a pessoa parte de um ou de outro princípio.

De fato, cada um de nós, em cada passo que damos, terá que vigiar os resultados práticos das suas ações – e afinal todos terão que agir e que mover o mundo, teremos que fazer as coisas, que imprimir nossa Vontade na nossa biografia – e isto seja baseados em um ou outro pensamento. E agora eu admito: se a gente for grão por grão no materialismo a gente chega também no Todo, o que era minha preocupação inicial. Minha ansiedade por me fazer ouvir murchou e secou a um ponto que eu posso achar razão, sem pejo, em quem pensa exatamente o oposto que eu. E ainda achar bom que há quem me preste o serviço de compensar o meu extremismo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.