Foi Mentira, não é mais

19 fevereiro 2015, Comentários 0

amerling-friederich-retrato de uma menina 1837Curiosamente a gente vive cheio de dificuldades pela vida toda. E é sempre uma corrida atrás do que a gente deveria ser. E é preciso ser sempre melhor, e melhor do que ontem e que no ano passado. E sempre temos um desejo intenso de ser mais do que somos.

Bom, tentar ser melhor não é errado, talvez tentar parecer mais do que somos não seja bom, mas tentar ser – isso é muito importante.

E quando vemos um amigo de muito tempo e ele pergunta como estamos nós nos preocupamos de não parecermos tão velhos, tão feios, tão cansados. Nos preocupamos se estamos vestidos de acordo, se ele vai ficar impressionado. Contamos dos nossos sucessos, dos nossos projetos e queremos que ele pense o melhor de nós.

Bom, eu jamais me poria na posição de defesa da mentira ou da hipocrisia, mas tenho olhado para este impulso com um pouco mais de compaixão. A mesma vontade de parecer melhores do que somos é aquela que nos leva a procurarmos ser melhores de fato.

E isso espalha-se por cada minuto do nosso dia, em cada ação que temos, em cada um dos nossos pensamentos. Queremos ser mais bonitos, mais ricos, famosos? Isto é um impulso natural. Logo nos perguntaremos ‘para quê?’. E nunca vêm respostas tão claras – isso quando elas vêm – porque passamos por muitos anos nos perguntando novamente as mesmas coisas.

De fato algumas pessoas conseguem ficar ricas, famosas e bonitas. Muitas pessoas são bonitas, somente, outras ricas, outras famosas. E como todos nós, estas pessoas também querem ser melhores. Nossas ambições são infinitas! E na verdade nunca estamos de fato satisfeitos com o que temos.

Depois de uma cirurgia plástica que levanta a ponta do nariz virá um outro incômodo, que vai levar a outra cirurgia plástica. Poucos anos depois de ganhar milhões na loteria o sujeito que fica rico ainda vai estar querendo ter mais dinheiro – talvez tenha gastado tudo, talvez não. Mas não fica satisfeito. E ter fama é adquirir o medo de ser esquecido – e isto perdura pela vida toda – e é inevitável.

Evitamos os pobres, os feios, os doentes, os azarados, de medo que possamos ‘pegar’ este azar. E por mais terrível que possa parecer,  isso provêm de nossa necessidade de sermos melhores.

Assim, depois de tanto tempo querendo parecer melhores, nós vamos começar a nos polir de fato – falar com cuidado, agir com cuidado, para ‘parecermos melhores’ – e de tanto tentarmos seremos um pouco melhores mesmo.

E, lá pelas tantas as pessoas vão olhar para nós e dizer: ‘veja que pessoa exemplar!’, e apontar o cuidado com que você fala ou anda, ou se veste. Vão falar de você e isto vai confirmar que seus esforços valeram a pena – e isto vai te envaidecer…

E embora a gente não tenha provas da vaidade dos outros, a gente sempre testemunha a própria vaidade. E para alguém que quer parecer melhor não tem coisa pior que isso. Sim, porque você vai estar rodeado de gente que te elogia e diante da própria imagem interna – vai ver que se tornou uma pessoa que só faz as coisas para receber elogios!

E isto envenena. Nem mesmo que a gente tenha conseguido testemunhar nossa sujeira interna bastante calados durante anos nós conseguiremos permanecer assim para sempre.

Nasce em nós a necessidade de sermos verdade. De fazermos as coisas a partir de uma necessidade real, de fato para os outros e não mais ficar ouvindo elogios que nós sabemos lá dentro do nosso íntimo não serem merecidos porque não éramos de fato cuidadosos, solícitos, compassivos, e sim, vaidosos!

Depois de um tempo vamos querer mesmo ser o que parecemos ou nem mais o que parecemos vai limitar nossa vontade de sermos melhores. Mesmo que isto tenha nascido daquele impulso que nem era assim tão digno lá no começo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.