Foco e Flexibilidade

1 abril 2013, Comentários 0

relogio_daliA maioria das minhas horas de trabalho acontece em casa. O trabalho de escrever é em casa, frente ao computador. O trabalho de pesquisar e ler é em casa, o de elaborar projetos, também. As traduções, também. Depois de séculos de planejamento se faz a execução de um projeto fora de casa. Talvez em uma escola, em uma empresa ou na sede do Liceu. Até meus trabalhos manuais também acontecem em casa – bom, estes são o contraponto para tanto trabalho intelectual.

Mas quem já trabalhou em casa sabe bem o que isto significa. Em casa estão as demandas da casa, os ritmos da casa que precisam ser mantidos pela saúde de todos. Comer à mesma hora, limpar tudo em seguida, a casa precisa de limpeza, manutenção, tudo o que toma tempo e que garante que todos tenham roupas limpas em seus guarda-roupas, móveis sem poeira e sem visitas de bichos indesejáveis.

Para esta manutenção é preciso fazer compras, manter os materiais em ordem e tempo, tempo, tempo… Tudo isto é um exercício, que requer um esforço feminino – o que não quer dizer que homens não tenham a qualidade de manter a ordem e o ritmo. Somente digo que são características do lado feminino.

E além do ritmo da casa, essencial para a saúde de todos, como eu disse, há também o telefone, a campainha, e o julgamento de que você estando em casa tem todo o tempo do mundo para fazer qualquer coisa a qualquer hora.

Bom, você sabe que não é assim. Muitas vezes é preciso se trancar em um espaço solitário da casa e não atender telefone nem campainha e deixar que a poeira se acumule, que o balde se encha de roupas, que as aranhas venham morar na sua biblioteca. Precisa deixar que outra pessoa assuma o almoço, precisa de foco.

E no meio disso tudo você precisa manter uma orelha atenta para fora. Sim, porque a pessoa que faz o almoço não pode ser uma escrava do teu trabalho. Você mora junto com ela. Tem filhos com ela, por exemplo, ou divide uma república, sei lá. E isso é uma característica de quem se carrega sozinho. De quem não tem um chefe ou uma meta estabelecida de fora, mas tem uma chefia interna de disciplinar-se e uma meta que se determina a partir de si mesmo. O tempo e a execução das coisas está sob seu próprio comando. Há uma hora para a casa e outra para o trabalho.

Bom, é preciso ter uma boa medida, uma boa respiração entre as duas demandas.

Bom, hoje me ligou uma tia afastada. Uma irmã de uma tia minha, que mora relativamente perto aqui de casa. Eu estava no meio de um trabalho que me exigia muita concentração, mas – infelizmente – estava diante do telefone! No impulso de me afastar do atrapalho do barulho intermitente do telefone eu o atendi. Mais por isso do que com ideia de realmente atender a pessoa que estivesse do outro lado da linha.

Só que esta minha tia, que tem já alguma idade, que tem uma vida com suas prioridades e objetivos, precisava vir até aqui perto de casa visitar uma loja. Mas não há ônibus que vá da casa dela até tão perto da loja quanto ela desejaria. Naquele instante, testemunhando a ideia do meu projeto desvanecer e agoniada pela perspectiva de voltar a estaca zero na inspiração eu sentei com o telefone no ouvido, prestei atenção ao que ela dizia e pensei: talvez eu nunca mais tenha oportunidade de fazer nada por esta minha tia. Talvez ela nunca mais precise de mim ou talvez ela nunca mais tenha vontade de ligar para minha casa às 9 horas da manhã para me pedir uma ajuda.

Nesta hora eu me dispus pelo exercício da vida, mesmo: ‘A que horas você quer ir, tia, eu te levo lá.’ E abandonei qualquer ideia de que, se ela não tivesse ligado, eu pudesse ter terminado num tempo muito mais curto o meu trabalho. É preciso estar para o mundo, também. Disso me lembrei. É preciso acolher as demandas que, aliás um trabalho em um escritório evitariam. Afinal a vida acontece agora, e há vinte e quatro horas todos os dias. Ideias são raios que nos atingem em um milésimo de segundo e tias são criaturas preciosas e complexas que só vão ligar para você na manhã de hoje. Pondere.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.