Esperando um Elogio?

19 julho 2014, Comentários 0

originofpainting_cmykCuriosíssimamente precisamos sempre de um empurrãozinho. Precisamos de alguém que tome lugar na nossa consciência e nos diga: ‘Mas é claro que você consegue!’ ‘Tente!’ ‘Basta você querer’…

E volta e meia olhamos a nossa volta para receber um elogio por algo que conquistamos. Somos meio crianças na nossa consciência comum. Não nos damos o devido valor, porque não nos reconhecemos naquilo que devemos ser. E isso provavelmente porque não temos parâmetros para isso.

Parâmetros pessoais, não parâmetros para comparação: ‘fulano, na sua idade, já tinha dois apartamentos e uma caminhonete’, ‘a filha da vizinha sabe fazer tal coisa como ninguém’. Olhe os filhos daquele casal, que bem comportados. Isso sempre significando: ‘o que você faz e tem está aquém do que deveria’. Ora, de fato o que importa a situação de tal ou qual pessoa olhada de fora? Que bom para eles serem ou terem as coisas, mas você não tem que se medir pelas conquistas alheias. A gente se mede por si.

No entanto, não sabemos o que medir: medimos a beleza? O dinheiro? O número de familiares, de filhos, de posses? Não sabemos o que medir porque nos falta um parâmetro interno: o que é mesmo que eu estou fazendo aqui? Onde é que eu quero chegar? Para que é que eu estou me esforçando tanto?

Se é para fazer dinheiro, a medida é o dinheiro, se é para posses, então a medida é mesmo as posses. Mas deveria ser de si para si mesmo. Não dá para a gente ficar de olho na caminhonete do vizinho, porque isso vai, no máximo, te deixar chateado ou invejoso. Ele mesmo tem que ver se o que ele tinha como meta final da vida exigia aquela caminhonete, ou se, no final das contas, a caminhonete virou uma atrapalhação no caminho de vida que ele deveria cumprir. Que sabe? Só ele. E só se ele prestar atenção.

Qual a medida de você para si mesmo?

Se ao contrário do que falamos há pouco, nossa medida for algo diferente, se tivermos como meta sermos malabaristas, sermos músicos, sermos escritores, filósofos, ou ainda além, sermos alquimistas e querermos descobrir o segredo da pedra filosofal?

Que parâmetros nós teremos?

Vamos nos deparar com uma série de requisitos que vão nos conformar como isso ou aquilo: temos que ser fortes, ter tal coordenação motora ou termos uma firmeza moral muito grande.

Poderíamos nos medir por gente que já fez um caminho neste mesmo sentido. mas não dá para a gente se medir por eles. Eu vou querer ser melhor que Kant? Que Jung? Que Einstein? Em que sentido? Qual deles partiu de onde você partiu? Qual deles veio com as mesmas ferramentas que você veio para esta vida?

É impossível esquecer que nascemos seres únicos, se não por maior evidência, ocupamos espaços diferentes no mundo. Nascemos em horas e famílias diferentes e recebemos um corpo e um nome original – um que ninguém mais tem. Vai longe isso da nossa originalidade, do nosso sermos únicos. E também, nem olhe para o seu irmão, ou para o seu colega de classe. Por mais parecido que seja o ponto de partida, jamais chegaremos ao mesmo lugar ao final. São muitos encontros, muitas influências, e muitas vontades diferentes.

No entanto temos nos encaminhado às cegas. De olhos fechados vamos vivendo o dia de hoje absolutamente sem memória do tempo passado, e da nossa meta pessoal. Dai alguém nos diz: ‘puxa, como você é bom nisso!’ E você se abala até o fundo dos ossos. ‘Deve ser isso o que eu vim fazer aqui!’

Porque te importa o olhar dos outros. Porque no seu caminho, a aprovação e o elogio fazem diferença no percurso e até na avaliação!

Só que você não tem  mais 10 anos de idade! Lá valeria a pena ouvir as avaliações e os pareceres. Pelos olhos dos outros a gente se enxerga um pouco, mesmo. No entanto, dos 10 aos 30, dos 10 aos 50 já teve um bom tempo para você ter se descoberto e achado um rumo.

É preciso olhar para si com um pouco de paciência e menos dependência dos olhares de fora. Talvez você não ganhe um Oscar, talvez você não receba um busto em uma praça, mas quem tem que saber do seu caminho é você.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.