A Era do Amor e a Bandeira

19 novembro 2013, Comentários 0

mendigo e bandeira

Hoje ouvi o hino a bandeira bem longe alguém com a televisão ligada. “Nossa, hoje é Dia da Bandeira,” eu pensei. E aí larguei meu trabalho e fui ouvir de perto. Eu fico até envergonhada de gostar tanto de ouvir o hino da Bandeira. É lindo! Eu tenho que me segurar para não cantar junto e dançar até, e minha garganta aperta emocionada e tenho que conter as lágrimas. Uma coisa de criança, sei lá. Me comove até as células mais escondidas. Acho maravilhoso e otimista, reconheço um conteúdo romântico e fico entregue.

Fui até a televisão e ouvi toda contente. Bom, eu queria cantar junto, só que o regente segurava o freio de mão. Mas o hino é lindo assim mesmo e ao invés de cantar fiquei ouvindo e ouvindo. Não era um coral bem afinadinho. Era gente cantando mais espontaneamente. Mas ainda o hino é muito lindo. Fiquei ouvindo até o fim, olhando para a televisão.

Via-se um gramado grande cortado por largas calçadas cercando lagos, de um lado havia um prédio branco todo cheio de janelas e ao fundo uma bandeira gigante presa pelos dois cantos superiores em braços longos. Talvez fossem gruas, não tenho certeza. E havia as pessoas espalhadas em grupos. Isto foi o mais curioso. Havia jovens escolares, talvez, vestindo uniformes – meninas de saias e meninos de bermudas. Camisas brancas. Outros eram políticos de terno e gravata e muitos eram militares, todos vestindo os uniformes que os distinguiam uns dos outros por serem de diferentes forças armadas. E havia distinções hierárquicas marcadas por galões e medalhas entre os presentes.

Olhei para este povo todo cantando o hino que eu amo. Eu nasci no século XX, passado do meio do século XX aliás. Mas nosso país, embora mais velho, é muito jovem. A descoberta está oficialmente marcada em 1500. Esta bandeira veio muitíssimo depois. E nós nos rodeamos a sua volta e cantamos um hino apaixonante vestidos como os romanos na época de Cristo, ou como gente ainda mais antiga.

Confesso que fiquei transtornada de ver uma coisa dessas. Um país nascido há tão pouco tempo! Organizamo-nos em hierarquias onde devem estar marcadas as diferenças, os degraus, as distâncias. Somos capazes de estruturar nosso Estado sem nos dar conta que a trimembração implícita nele impõe a horizontalidade. Mas nós disfarçamos esta imposição e nos organizamos em melhores e piores, entre escolhidos e preteridos, entre privilegiados e destituídos.

Passamos a vida nos fazendo aparecer diante dos outros com o melhor carro, o mais caro apartamento. Fantasiamo-nos de gente que não trabalha usando sapatos sempre polidos ou saias justas. Temos as mãos macias e quanto mais macia mais dignos nos parecemos – uma lógica medieval de superioridade na nobreza rica, como se não fôssemos pertencentes a uma sociedade da nossa própria época.

Queremos ser melhores do que os outros e dar aos nossos filhos a frente nas corridas, nas competições. Mas onde é que estamos com a cabeça? Isto já não acabou? A gente não está em uma sociedade da ética e do amor? A gente não deveria ser igual em tudo?

Nós não somos. Somos os que possuem casas e armam paredões e cercas e eletrificamos portões. Somos os que guardamos nossos carros em estacionamentos temendo serem arranhados pelos meninos de rua, que nós chamamos de delinquentes. Nós tiramos deles a oportunidade de ter como temos e os colocando de fora nós os inventamos como agressores. Este é o país em que vivemos. Este é o mundo.

E isto depois de 2000 anos que o Ocidente repete a lei do amor, porque depois do advento do Cristo esta verdade se espalhou por toda a parte. Mas a gente não ouve.

Desliguei a televisão pensando que estamos treinando apenas. Nós não sabemos amar nossos esposos, nossos pais, nossos filhos. Nosso amor é egoísta e limitado. Temos que treinar muito. Exercitar muito o amor, para poder se olhar frente a frente e querer ouvir a todos e derrubar os muros que separam e discriminam. Na próxima a gente precisa cantar “pavilhão da justiça e do amor” almejando justiça e amor de verdade.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.