Envelhecer

15 fevereiro 2013, Comentários 1

racheldequeiroz

Muito me impressiona o medo que as pessoas desenvolveram da velhice. Velhice hoje migrou de palavra que definia idade para o rol das que definem doença. Você vai ter artrite, Alzheimer, Parkinson, osteoporose, câncer e velhice. Velhice é doença ou é defeito, é mais temida que a morte, mesmo porque é a velhice que se alonga com as conquistas da medicina. Quando se diz que a expectativa de vida subiu, não se agregam anos da vida à infância ou a juventude, mas à velhice!

A gente morre de saudades da infância que passa rápido demais, vive pasmado a juventude e passa o resto da vida querendo ter de volta vinte e poucos anos. Não é pecado querer ser bonito, forte, ter a pele firme, sem rugas, não ter olheiras, não ser mole nem flácido. Vale mencionar que nesta escala a antecipação da velhice feminina é cruel.

Enfim, tememos nos gastar na vida, aquilo de dizer que não se quer dar de mamar para não ficar com os peitos caídos, ou de colocar hidratante, protetor solar e óculos de sol em crianças pequenas para andar 15 minutos no parque. E pintar o cabelo, também. Parece que ninguém está preparado para ter idade. A gente se ressente da barriga, dos óculos pós 40, da lerdeza.

É difícil ver alguém comemorar o envelhecimento. Todo mundo lamenta ficar velho, mas isto é um contrassenso. Também ninguém acha ruim a experiência. Já pensou naquela reunião difícil você ter a mesma visão de mundo que tinha aos 20 anos? Imagine o que seria sua filha vir te apresentar um menino que conheceu no colégio e você não conseguir perceber no olhar dela todo o amor que ela dedica para ele. Já pensou como você administraria seu dinheiro, seu tempo, suas relações? Já pensou como seria para você lidar com a ansiedade do seu filho se ele não passasse no vestibular.

Existe uma consciência para cada época. É de se comemorar que aos 16 anos uma menina ame com toda a dedicação um rapaz, e não pense que ele não combina com ela, que daqui a um mês talvez haja outro rapaz mais interessante, que não vai ser ele o último amor da vida dela. Isto é para os adultos pensarem. É uma perspectiva experimentada, já. Não cínica, como teriam alguns achado. É parte do conhecimento da vida, da observação. É bonito ver o caminho trilhado e observar quão intensos são os passos que as pessoas dão em cada época. É muito bonito poder ver que a cada momento temos um gesto diferente para as mesmas realidades. Da ansiedade passamos a paciência. Da angústia ou raiva para a compaixão ou o perdão.

Os dias passam e nosso corpo revela marcas de experiência: experimentar o sol, experimentar o riso, experimentar acordar e dormir e abraçar, e correr, e tudo isso desde que somos bem jovens. Quando temos o corpo denso, pesado e forte. Talvez nos falte perceber que o corpo é como um vaso da consciência. Não se espera de uma criança que tenha a consciência de um adulto, ou de um velho. O corpo dela é vaso para outro tipo de consciência, talvez ainda pesado demais para a renúncia que vem com a velhice, ou para o perdão e a compaixão.

Ensinamos aos pequenos porque sabemos, porque já vivemos, porque já incorporamos por exercício uma consciência maior. Podemos com isto dar exemplo. Estamos no meio do caminho para o fim da vida. A frente virá a velhice para todos nós. O corpo de hoje vai ser mais frágil, mais leve. Que consciência teremos então?

O que é ter cabelos pretos por 50 anos e ir branqueando? O que é não ter mais o rosto que você viu no espelho por tanto tempo? Para onde será que vai a vitalidade? Não se transforma? Afinal, nada se perde, não é mesmo?

Eu desejo ser a velha que eu quero encontrar. Uma velha que saiba tudo do amor e da dor, uma velha que consiga me abraçar com carinho e paciência porque eu não entendo todas as coisas e choro. Eu quero ter coragem de envelhecer, de permitir que meu corpo vá ficando mais poroso e transparente como um vaso, o graal, para poder penetrar nele os mistérios que hoje eu não conheço, abrigar uma consciência mais amorosa e abrangente.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    Na juventude os olhos estão abertos para o mundo de fora.Ora, envelhecer olhando para fora é ficar com medo do cabelo branco, da pele manchada e flácida, das mazelas do desgaste natural. A velhice é a hora de olhar para dentro, descobrir o mundo interior, suas belezas e profundidades.