Ensinar a ser gente

30 março 2014, Comentários 0

Sagrada_familiaDescobri que a emoção arrasta somente quem se deixa arrastar por ela. A gente não precisa deixar. Ninguém tem, na verdade, poder de ofender, envaidecer, provocar ódio ou ciúme em ninguém. Isso é o que vem de fora da gente. No entanto, o que tem dentro também pode receber a culpa da mesma maneira que as coisas e as pessoas que estão fora: as memórias, os pensamentos, os desejos e as ideias. Basta que uma destas coisas se apresente e a gente é vitimado por estas forças que nos arrastam e nos derrubam.

Bom, a gente tem que dar graças porque vai ter um bom tempo para se dedicar à fortalecer raízes e tronco. Sim, porque aquilo que devasta o coração de uma criança pequena não pode nos devastar aos quarenta anos. Ninguém tolera uma pessoa chorar porque disseram para ela que ela tinha que limpar a boca suja de molho de macarrão, mas as vezes a gente vê uma criança pequena fazer exatamente isso. Chora de soluçar, porque lá dentro dela ela se magoa, se frustra e se quebra diante dos outros.

Em se tratando de choradeira de adultos as mulheres parecem estar na frente. Chora por tudo! Tudo toca seu coração. Homens choram também, mas tem dentro de si uma espoleta detonada pela frustração que as mulheres em geral não tem: explodem de raiva contra a pessoa que consideram a fonte de sua frustração – instintivamente submetem e punem.

O que faz com que um homem regule a explosão em uma família é geralmente a presença da mulher. Cedem porque elas existem, porque elas silenciosamente impõe limites. Sim, é preciso acolchoar as relações entre os mais velhos, os homens e as crianças. E não vai ser necessário fazer isso uma vez, somente. Não. Serão várias vezes, todas as vezes, repetidamente.

E tem que ter muita paciência, porque se você for ver de fato, uma criança quer atenção e afeto egoísticamente. A gente vai colocando limites e isto frustra, mas ela vai compreendendo vagarosamente  que o mundo é feito de todas as pessoas e todas as pessoas precisam de seu quinhão de espaço para viver.

Os adolescentes já sabem dos limites e porque detestam os limites os estão tentando empurrar mais adiante – algo bastante compreensível – mas ainda o adolescente se ressente pessoalmente do mundo e briga por si, porque não tem as suas próprias vontades acolhidas todo o tempo.

Crianças e adolescentes a gente está educando. Mas deveríamos largar mão de tentar educar os mais velhos. Como é que faz com pais, padrastos e tias e tios que não têm freios para os próprios sentimentos? Por que é que estamos o tempo todo tentando educar nossos esposos para que não se enfureçam, para que não se permitam explodir em raiva sobre as outras pessoas, para que não se vinguem através de palavras violentas ou por aplicação de punições? Isto não deveria mais acontecer.

Em que tempo nós estamos que não podemos reinventar as relações a partir da aprendizagem do perdão e do amor dentro de casa? E por que é que a gente se apóia em uma pessoa como responsável pela regulação do limite? Não é tarefa de cada um o polimento de sua pessoa? Por que é que não é suficiente a ética interna para cercar as ações e as palavras? Por que é que a gente não pode deixar os adolescentes perceberem por si até onde devem ir e apresentar-nos como adultos corretos e generosos para construir sua própria ética?

Eu tento a minha parte. Eu quero ser referência – e erro, e me frustro, e passo do limite. Mas isto tem que acontecer cada vez menos todos os dias. Nós temos que ser um espelho para os seres humanos jovens – um espelho de capacidade de acolhimento, de capacidade de compreensão, de capacidade de renúncia para que eles possam considerar o acolhimento a compreensão e a renúncia.

É preciso olhar com honestidade para aquilo que nos é essencial e aquilo que é essencial para os outros. O que é mais saudável no momento da negociação? Que eu imponha minha vontade? Que eu marque meu território? Que eu exponha a fraqueza do outro? Ou importa mais que eu reconheça o momento do outro e que eu consiga mostrar a necessidade dos outros em comparação com a necessidade individual?

Este é um desafio do nosso tempo. Ensinar a ser gente.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.