Encosto

9 abril 2014, Comentários 0

19927423.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxFiquei pensando qual era a razão de a gente não realizar as coisas que nos vêm na mente com presteza e rapidez. Você acorda de manhã e se absorve nas coisas do cotidiano: já está tudo determinado – você quase nem tem tempo para nada, mas a cada pouco te vem uma ideia sobre aquilo que mais você almeja. Faz quanto tempo que você está nessa? Faz meses? Anos?

Olhe bem para o seu objetivo maior – seja ele uma empresa, a mudança de profissão, sei lá. Cada um com o seu alvo na vida. Mas todo mundo tem alguma coisa que almeja muito e que não pôs ainda pra rodar. Por quê? Porque a gente tem um ‘encosto’ – desses mesmos que você ouvia falar quando era pequeno – é uma ‘entidade’, sei lá, uma ‘alma’, alguém de um outro plano que fica assombrando você e não te deixa ir para frente.

Gostou dessa versão para a sua enrolação? No fim não se trataria apenas de você, mas de um ‘encosto’ o motivo pelo qual o seu ideal não está aí servindo ao mundo.

Existem inúmeras histórias na tradição dos povos sobre pessoas que começaram a servir um serzinho sem importância que foi crescendo, crescendo, se tornando exigente e dali a pouco ameaçando a vida do benfeitor se ele não continuasse a alimentá-lo. Vide o filme trash e divertido ‘A Pequena Loja dos Horrores’ – um bom exemplo. Sim, é esta a melhor imagem para o encosto – você mesmo vai alimentando. Ficou com medo? Mas é isto mesmo o que acontece. No começo ele não passa de poeira que se espane, mas você dá vida a ele e deixa a vida dele importante, interessante, porque você o alimenta! Você não permite que o encosto morra de fome, entendeu?

E para quem está pensando que isso é só uma ‘imagem esclarecedora’ ou ‘uma ilustração’ apenas, eu vou ter que reiterar: não é! O Encosto não era nada até que ele visse uma gotinha de sangue pendente do seu dedo – e você cedeu ao seu interesse! Lá foi ele alimentar-se, cresceu, e agora come um pedaço da sua carne todo dia. E é você mesmo quem dá a ele o que comer.

O Encosto é a soma dos seus medos de sentir vergonha, de ser julgado, de ser criticado, de não dar conta. O Encosto mora na sua imaginação criativa e vive de mamar a sua insegurança.

Você lembra da primeira vez que teve concreta a ideia brilhante que te inspira ir para frente todos os dias? Lembra de quando surgiu o primeiro medinho? Exatamente nesse momento é que nasceu o Encosto – ele nasce como a poeira da sua ideia. Nasce porque seres profundos e significativos para o universo têm matéria e terão uma história.

A sua modéstia, a sua humildade, a sua fragilidade há tanto tempo não estão servindo ao mundo – estão servindo ao Encosto somente. E este Encosto, ralo, buraco negro, nunca vai parar de comer, ele está confortavelmente vivendo do seu não fazer.

No entanto agora ao invés de ir ter com a dureza da realidade de fazer sua ideia nascer você está ponderando filosoficamente na crueldade de se matar um ente de fome – eu já ia dizer um ‘ente querido’, e certamente caberia. Sim, porque nós nos apegamos a nossas dificuldades que no fim se tornam a desculpa perfeita para a inação: ‘não é que eu não queira, é que tem alguma coisa na minha vida que está me segurando… tenho que chamar um pastor, um padre, uma benzedeira, tenho que rezar um terço…’

Vou dizer: para o encosto sumir tudo isso ajuda, mas você vai sim, ter que matá-lo de fome. Enquanto você não fizer isto estaremos todos sentados sem aproveitar a glória da sua ideia. O que era? Você seria o inventor do grampo de roupas? Da lâmpada elétrica? Da Comunicação não Violenta? Deixa a gente ver!

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.