Encontros

18 junho 2014, Comentários 0

vaticano-espiralA gente vai como vendado pela vida. Não lembra dos encontros marcados. Tropeça nas pessoas e muitas vezes chega a achar ruim o choque da primeira vez.

Pois bem, é preciso lembrar que são mesmo, encontros marcados. Por que você está se encontrando com o caixa do banco, do cinema, do supermercado? Por que você sempre pega ônibus com as mesmas pessoas ou trabalha há doze anos com este colega aí do teu lado? Será que um convívio como este não te trouxe nada?

Mesmo assim, eu insisto: somente hoje, no meio da tarde, descendo as escadas, você vai encontrar uma pessoa. Somente hoje. E ela vai estar com pressa, mal humorada. É uma pessoa feia, talvez, talvez mal vestida. Talvez ela esteja de uma tal maneira disfarçada que você não consiga perceber que marcaram este encontro para hoje. Talvez seja ela, justamente, a pessoa que pode abrir para você o desentrave para que a sua grande missão de vida deslanche.

Há sempre duas possibilidades: podemos passar pelas pessoas nos encolhendo e nos retirando. “Grossa!”, você passa pela pessoa na escada, esboça um cumprimento e ela derruba as coisas que tem na mão já xingando todo mundo. “Eu é que não vou ajudar esta grossa!” E aí você vai embora, e provavelmente não vai se encontrar com ela nunca mais na sua vida.

Os caminhos se cruzaram aí, neste momento, nesta escada.

A outra possibilidade é você ajudar a juntar o que caiu, apoiar esta pessoa mal-educada mesmo enquanto ela xinga e, neste momento, lá de dentro das mazelas que ela esteja passando ela emerge. Ela olha para você e te reconhece de fato sem te reconhecer. Talvez ela consiga te agradecer a ajuda, talvez ela até te ofereça um café na panificadora antes de irem trabalhar.

Neste momento, entre os comentários usuais sobre o clima ela te conta de um conhecido que trabalha justamente no que você trabalha e que está fazendo a mesma coisa que você está. Ela te passa este contato e a tua vida se desenrola daí para frente.

Muito provavelmente você não veja mais esta pessoa. Muito provavelmente ela só veio te dar esta ‘chave’, tropeçou em você para cumprir um acordo anterior. E você não sabe.

Há aqueles encontros que vão durar uma vida: os encontros entre pais e filhos, entre esposos, entre colegas, entre amigos. Serão encontros que a cada vez vão enriquecer o caminho sem deixar marcas muito sensíveis.

Mas como seria a vida da gente sem estes encontros? O que não se faz pela urgência da febre de um filho, pela urgência da escola, pela pressão da fome que ele sente? Vira-se o mundo do avesso!

Quanta força de vontade nasce por nos apaixonarmos por alguém? O que seremos capazes de fazer para abraçar uma pessoa que amamos?

Por outro lado, o que nos nasce para poder superar uma antipatia por alguém que se senta do nosso lado diariamente para trabalhar? Quem seremos nós após em um ano de tolerância?

Nossa vida vai-se conformando a partir também de nossos encontros. Aquilo que precisa vir para mim me será entregue por uma pessoa mal-humorada que desce a escada. Somente se eu permitir que isso me chegue, porém.

Não vou sentir nada quando passar por uma pessoa pela escada e evitar totalmente o contato com ela. Minha vida segue seu curso, nada vai mudar. Porém permanecer com a vida exatamente como ela está agora pode ser a pior coisa para você. Seria colocar um bata a todos os botões de flores e eles não abririam mais. Tudo estacionaria exatamente onde está. A escolha é sua.

Examine antes de dormir todos os eventos do seu dia. Descubra os encontros do seu destino. Descubra as entregas que recebeu no dia de hoje. As boas, claro. Mas descubra aquelas pelas quais você se revolta e pense que estas também foram encomendadas. Agradeça todas elas. Você estava precisando de cada uma.

escada István Oroszescada István Oroszescada István Oroszescada István Orosz

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.