Encantados e escravos

19 agosto 2013, Comentários 0

magic-mirrorEscherEsta é uma ilustração para nosso sono a respeito do que pensamos e à nossa ingênua suposição de termos autoridade sobre nossos pensamentos.

Creio que qualquer adulto seja capaz de imaginar como é administrar um país. Talvez seja como administrar a casa em larga escala. Sempre a questão é racionalizar recursos e pessoas. Bom, não são poucos os brasileiros. Na soma geral não são poucos os recursos, também. Mas a dimensão do país e a distribuição dos recursos é o que dá uma temperada na nossa experiência particular de administrar o Brasil. Enfim, todos precisamos de energia para processar alimentos, para aquecimento ou resfriamento, para transporte, construção, comunicação, etc. Todos precisamos de água para beber, cozinhar, lavar, etc. Todos também precisam de educação e isto é ponto pacífico.

Outro dia eu assisti a um trecho de uma explanação de um professor a respeito da feitura de represas para produção de energia elétrica. Eu fiquei pasma. Ele argumentava que não se devia prestar atenção ‘às mínimas adversidades’, que ele não listou, mas para não nos esquecermos devem constar o deslocamento de populações humanas, de populações animais, o alagamento e portanto morte de vegetais somados aos animais não resgatados, também metros e metros de cabeamento para transmissão, da colocação de postes, e a cada recuso vindo de fora, o custo real desde sua retirada da natureza, da administração das condições sociais para isto, etc. Estas ‘mínimas perdas’, segundo o professor, não deviam fazer-nos esmorecer ante a maravilha do aumento da distribuição de energia e também da contenção de eventuais inundações.

Ele listou um número de grandes chefes de estado e entre eles um chinês de há mais de dois mil anos. Eu concordo: houve um tempo em que as coisas eram feitas de uma certa maneira, mas hoje estamos numa época em que precisam ser consideradas as perdas com muito mais cuidado e verificadas alternativas. Mas o mais importante foi que eu percebi que em qualquer argumentação as pessoas alinham sucessos do passado. Óbvio! O que já deu certo só poderia ser argumento favorável… ou não?

Penso que estamos atados a fios da nossa cultura. Aquilo que pensamos nos forma, e é aquilo que ouvimos de alguém, algo que anteriormente nos convenceu e decantou em nós formando o que somos em um âmbito físico até. Vejo que estas crenças estruturam nossas paredes celulares, nossos ossos, do nosso sangue, e portanto, nossas doenças. Ninguém discute com o próprio sangue, mesmo quem é hemofílico, diabético, canceroso? Nós vamos atrás de nos curar fora de nós, com intervenções externas, porque não conseguimos perceber que o que somos é nossa própria criação. Nossa própria dureza.  Nos convencemos de que o que somos é assim e está acabado. O que nos forma é indiscutível.

Um exemplo claro disso é esta recente exigência que deixemos de fazer piadas contra gays, deficientes, mulheres, etc. Ué, quem não se lembra de programas de humor na TV com este conteúdo? (bom, ainda fica a denúncia quanto a objetificação da mulher, a banalização da violência, a manipulação das crianças etc). Mas este tipo de pensamento contra a diferença – e baseando-se num código de ‘melhor/pior’ foi banido. Agora a gente tem que jogá-los fora, embora antes nem percebêssemos que eles existiam. Sempre foi ‘normal’.

Estes pensamentos são parte de nós, pensamentos que nos constituem e que simplesmente estão transparentes na paisagem. Sumidos da nossa consciência. São pensamentos que nos encantam e, por nos encantar, nos sujeitam, nos escravizam. Somos de tal maneira dominados por eles que sequer discutimos se são benéficos ou não. Eles nos enfeitiçam e a partir daí nos governam.

Logo que terminei de ouvir as palavras do professor em defesa das barragens eu expressei meu temor pelos que teriam que suportar as ‘mínimas’ adversidades. Ouvi, então: ‘mas são mínimas, mesmo. Num país como o nosso, há uma demanda de energia muito significativa’. Será que aquele montante a ser gasto para suprir as necessidades de tantas e tantas pessoas não poderia ser pulverizado em cada casa com placas solares, dínamos, moinhos, etc? Isto dispensaria a fiação e a própria barragem porque não existe sequer um lar brasileiro que esteja longe de pelo menos um rio, de vento ou do sol! E precisamos usar menos energia para fazer as mesmas coisas – é nisso que deveríamos investir, neste tipo de pesquisa. Precisamos mexer menos com a terra, porque já passamos do limite de intervenção. Estamos atados a ideia de que não existe criatividade, eficiência, solução diferente da que englobe milhões de pessoas em um só caminho. Precisamos sempre pensar em ‘grandes massas’.

E isto me fez pensar na educação, que é meu foco.  Vivemos um projeto insano de uniformização do ensino em escolas. Testemunhamos décadas de exclusão e estratificação da sociedade entre os que detém e os que carecem de tudo. ‘Mas sabe quantos alunos há no ensino fundamental neste Brasil inteiro?’ alguém poderia dizer. No entanto, todas as crianças nascem em uma comunidade. Por que é que a comunidade não pode abraçar a criança? Somos cegos em desautorizar a comunidade. Nós retiramos de lá um de seus membros, contamos para ele o que se deveria ensinar – e isto não abrange quase nada do conhecimento original daquela comunidade – e aí reinserimos o sujeito como professor na comunidade para que ele ensine como é que se deve ser.

O custo disso é imenso. Raramente é eficiente e o caldo final é a repetição de um padrão falido. Porque será que não confiamos que em cada lugar, cada comunidade saiba quais são suas necessidades, que em cada lugar cada grupo possa inventar seu modo de repassar conhecimentos efetivos para sua realidade e dialogar com as ideias que surgem entre seus próprios herdeiros. Por que não confiamos que a diferença pode trazer saídas melhores, invenções novas do modo de viver neste mundo que freiem finalmente as perdas da Terra pelos corrosivos pensamentos que nos têm encantados – e escravos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.