E a Doença te tira pra Dançar

14 janeiro 2014, Comentários 0

Marc Chagall - Amantes

Doença. Onde é que dói. Doença tem a ver com doer em algum lugar, e o médico poderia colocar a mão no seu corpo e perguntar: “é aqui onde dói?” Eu não sei onde é que dói. Dói aqui mais para baixo, mais para trás, mais para dentro.

“E dói desde quando?” Pois é, eu acho que esta é a mais dura das perguntas. Talvez a pergunta que o médico pudesse fazer fosse assim: “desde quando a dor grita tão alucinantemente dentro de você que você não consegue disfarçar nem com sua música preferida no head-phone bem alto, nem com o batom da Lancome da cor mais provocante, nem com o carro do ano, nem com o prêmio da loteria?” “Desde quando coca-cola, aspirina, dipirona, neosaldina, bebida, as mina, cocaína não aplacam o grito maluco da dor que você tem aí dentro?”

A doença vem da dor, com certeza. Tem doença muda. Doença que as pessoas dizem que nunca sentiram nada. Eu acho que muita gente sofre de uma doença assim – para estas não tem que por mordaça, nem tem que ter disfarce. A doença brotou atrás do muro e só vai aparecer para por fim a vida em um átimo, em três semanas, de susto. E talvez ninguém perceba que estas e as outras sejam a mesma doença. Doença que dói.

As outras, as que são de dor falante se apoiam na dor e vão deixando registros, marcas.  A dor mostra onde é que aperta o sapato, onde é o calo, o câncer, necrose. Há muita gente tomando analgésico e usando meia. Muita gente, eu e você , caminhando no shopping e tomando um refri com o pé quase nos matando de dor! Quisera nos matando antes. Será? Será mesmo que somos todos gente sem coragem de viver a vida boa com o sapato no tamanho? Por quê?

“Desde quando?” insiste o médico.

Se a gente tivesse visto quando! Se a gente tivesse querido guardar na memória, guardar no coração. Se a gente não deixasse o pedaço indigesto apodrecendo… Talvez a gente dissesse: “desde que ele foi embora! desde que minha mãe morreu! desde que eu soube que teria um filho! uma concorrência! uma decepção, um olhar…”

Onde foi que começou esta dor? Foi falta de um cantinho no colo, de um canto no quarto, de um canto no ouvido bem bonito, rimado cantado de noite que desse coberta pro sono. Quem dera! Que protegesse.

E como é que cura a mutez da boca de alguém cuja face nem mesmo eu me lembro? Como é que tampa um buraco de casco pisado em um estouro no charco no seu coração? Como tampa?

E viramo-nos de costas para o buraco e o esquecemos doendo menos cada dia. Talvez de pequenos tenhamos gemido um pouco e mostrado, mas ninguém viu. Era assim. Acabou-se. Deixe que doa. E dói menos e menos até que alguém resvala ali e você revida com mais força que devia ou do que se espera, e aí cobre com um pano.

Há um dia em que a gente vai ter uma doença que é o mapa do retorno. A doença que vai mostrar a ponta do fio que leva às origens de uma dor que pisou um coração novo, lindo, rico e jovem, e hoje, vinte, cinquenta anos depois, você ainda cuida do buraco. Sentado sem saber onde, você rumina uma dor e o médico lhe pergunta: “onde é que dói? Quando é que começou?”

“Tome dois comprimidos quando doer mais forte e este aqui de 8 em 8 horas”. E você toma.

Você poderia pegar a doença pela pontinha e ir enrolando e enrolando no dedo, na mão, no braço. Poderia dar o braço à doença e ir dançar com ela, não triste porque dói. Sempre doeu, afinal. Mas vá indo com ela, dançando a bonita dança de volta, até a hora em que o sapato apertou, e olhe o que foi. E daí, lembre de tirar o sapato.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.