A Dor e a Cura

24 fevereiro 2015, Comentários 1

Hieronymus-Bosch A cura da loucuraLi uma entrevista bastante lúcida de um médico britânico chamado Richard Smith, que coloca que a melhor morte é a morte por câncer. Fiquei pensando: ‘melhor pra quem?’. Afinal, todo mundo com quem eu falo quer ser roubado da vida num átimo. Não quer perceber o processo de decadência do corpo ou tampouco ter que pensar na morte. Todo mundo pede para estar saudável até o último momento e, sem aviso, ser levado sem dor ou trauma.

Pra começar, ninguém quer envelhecer, ninguém que sentir dor, todo mundo quer ser o que passou a ser a partir dos 23 anos. Jovens e bonitos. Pobres seres humanos que somos! As mulheres, especialmente. Porque ser um homem de 50 anos tem muita diferença de ser uma mulher de 50 anos. O corpo feminino tem uma expectativa de toda a sociedade de guardar a eterna juventude e ao mesmo tempo mostra muito rápido o envelhecimento.

O que nos assusta é que morte rápida ultimamente é uma raridade. Temos uma medicina que nos persegue em doses diárias de químicos que nos mumificam antes de morrer. E isto há de nos retardar a morte em muitos anos. Mesmo que a gente tenha doenças graves – pense em AIDS, pense em degeneração progressiva dos músculos, pense em diabetes do tipo mais agressivo – a medicina consegue que tenhamos muitos anos de ‘vida’ a base de coquetéis de remédios.

E isto é bom ou ruim? Será que com mais 20 anos de vida a gente vai conseguir fazer o que queríamos fazer? Por que é que queremos viver mais tempo? Nossa vida até agora mostra que vale a pena alongá-la? Ora, dá para contar nos dedos quem não quer alongar a vida. No entanto nós amontoamos dias inúteis e meses vazios de propósito.

É preciso pensar que carregaremos dores e doenças crônicas. Que despistaremos nossas sensações com analgésicos e que justamente estes tão abençoados remédios não nos deixarão olhar de frente para o investimento que temos feito em nossas vidas – e provavelmente nos tirarão a sensação de responsabilidade sobre os acontecimentos que virão a ocorrer.

São estes medicamentos, que amortecem sintomas, que nós temos dado a nossos filhos para que eles sosseguem quietos. E o que tem resultado destas novas gerações?

Não queremos perceber que são construções dos nossos hábitos diários de pensamentos e sentimentos que nos fazem desenvolver as doenças, nem mesmo teremos a chance de exercitar nosso modo de pensar e agir de acordo, de um jeito tal que aquilo de que sofremos – dor nas costas, nos músculos, hepática, estomacal, de cabeça, das articulações, etc – de um jeito tal, enfim, que esta luz vermelha, este sinal tão claro que recebemos do nosso corpo apague.

Sempre me pergunto se alguém de nós desconfia que haja uma relação entre a falta de atividade física dos nossos filhos e as síndromes de hiperatividade. Isto e a falta de exemplo do que é real atividade física por parte dos adultos, aliás.

Não queremos pensar que o câncer que desenvolvemos é tão somente nossa responsabilidade e não há nada que a cura externa pela medicina possa fazer por ele. Tudo o que a rádio, a químio, a extirpação de um órgão podem fazer é dar mais um tempo, mas talvez desviem também o foco da grande tarefa que é esta doença.

Talvez o que o médico britânico estivesse dizendo fosse uma versão prática de que você pode resgatar o que se perdeu durante a vida no curso dos meses ou semanas que a doença te reserva de vida ainda. Nada mais.

Isto garante a cura do corpo? Provavelmente, não. Para chegar a se manifestar no corpo a gente passa muito tempo investindo em ter uma doença pela vida afora. Talvez a hora de curar seja ainda quando você não tem o câncer.

E aí há algo de realmente bonito: Enquanto você aprende a curar a sua dor, a sua doença e o seu câncer, você está trilhando um caminho que ninguém nunca trilhou: o de descobrir como é a cura de verdade. E uma vez curada a sua dor interna e verdadeiramente, muitas outras pessoas poderão aproveitar a sua cura – todos os que foram e o que ainda virão.

Talvez nosso exercício de sermos melhores pessoas, de sermos mais conscientes dos nossos atos, sentimentos e pensamentos, de estarmos mais presentes naquilo que fazemos, este exercício pode nos curar do que temos sofrido há tanto tempo, e este é o exercício para a humanidade inteira. Por isto custa muito e é tão importante.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • maria ap. l. nanni

    Muito bom o texto Deriana, parabéns!
    Em pleno século XXI, quando digo que as doenças são consequências de nossos pensamentos e sentimentos as pessoas me olham perplexas como se isso fosse uma grande descoberta. O desconhecimento das leis naturais é o câncer da sociedade humana.