Do Zero

6 abril 2013, Comentários 0

starry-night van goghTodos temos talentos. Alguns de nós somos privilegiados e passamos a vida cercados de oportunidades de exercer nosso talento, e então passamos a maestria. Não há mais como errar, nosso treino é tanto e estamos tão abertos a sabedoria daquilo que sabemos fazer bem que quando estamos atuando temos o que as pessoas chamam de ‘presença de espírito’ que é, na minha opinião, exatamente o que a expressão claramente diz,

Pois bem, a nossa biografia vai levando ao longo da nossa vida este nosso talento para as mais diversas regiões e nós através do nosso talento nos tornamos pessoas sempre novas e sempre mais e mais experimentadas e nosso talento em nós também vai-se refinando.

No início da vida, nosso talento é uma promessa. Atravessa nossos brinquedos, torna-se interesse dos nossos pais, dos avós, dos adultos enfim que o notam e cogitam no que vai dar aquela tendência.

Vale lembrar que muitas vezes nosso talento na infância é uma promessa boa, outras um medo que corre pela família. Imaginem o que é para uma família pobre ter um filho com um talento artístico inegável em um país como o Brasil, em que o pão de cada dia custa muito suor. A possibilidade de um filho pintor, dançarino, desenhista é arrepiante para qualquer pai. Mas há quem tenha mais sorte, felizmente, e impressione sua família de um tal jeito que fique todo mundo numa expectativa muito grande de que este talento apareça em gênio e a pessoa realize aquilo que ninguém mais realizaria como ela.

Mais tarde, na escolha da nossa profissão ela pode virar um impulso, ou uma ameaça. Pode ser a causa de abandonarmos uma faculdade de arquitetura no meio como o Chico Buarque, ou pode ser a chance de assumirmos definitivamente uma profissão. Neste momento também a gente é assistido por nossos pais, eles se manifestam um pouco menos – se a gente tem sorte – e torcem para que tudo dê certo. Muitas vezes os pais lamentam o abandono de um curso. Muitas vezes o talento não é suficiente para render o que o curso abandonado renderia, enfim, e é motivo de apreensão.

A respeito disso me lembro de uma irmã minha há uns anos atrás: inteligência, beleza, força interior, criatividade e tantos talentos que a gente não sabia o que ela ia fazer da vida. Mas eram tantos talentos que nem ela mesma, durante muitos anos não soube o que fazer com eles. Tudo para ela era simples e fácil e, portanto, ela não conseguia se decidir – pulava de galho em galho. Abandonou vários caminhos e só depois de muito tempo conseguiu se achar. Daí se vê que os talentos podem até atrapalhar.

Hoje fui assistir a uma palestra que minha mãe ia dar na Sociedade Teosófica. Eu fui bem confiante de assistir uma exposição muito bonita. Minha mãe é dessas pessoas que realizou seu talento até as últimas consequências: ela não só tinha o talento de ser professora, mas esmerou-se em melhorá-lo. Foi dedicada, estudiosa a ponto de jamais parar de fazer cursos e de se aperfeiçoar. Trabalhou com os mais diversos tipos de pessoas – de pré-escolares no meio da favela a pessoas com necessidades especiais mentais. De crianças a adultos. Em escolas pela vida toda e em capacitações para professores. Em palestras e por muitas instituições como a Sociedade Teosófica mesmo, e sempre com muito sucesso e com muita energia.

Éramos poucos hoje assistindo à palestra. Umas 12 ou 15 pessoas. Eu na verdade cheguei em cima da hora, me sentei e quase não parei para contar as pessoas. Mas num passar de olhos vi que todos eram velhos amigos dos meus pais e muitas vezes frequentadores da minha casa. Meus pais sempre foram muito amados e respeitados por todos eles.

Minha mãe parou na frente de todos e disse algo como isso: ‘fui professora muitos anos como alguns aqui sabem, talvez, mas estou trêmula ante a perspectiva de fazer esta palestra’. Ela recebeu a simpatia e a acolhida de todo mundo. E eu tive uma percepção interessante – depois de muitos anos de trabalho, e talvez de outros tantos de aposentadoria, digerimos o que conhecemos como atividade consciente e subordinada ao nosso ritmo e a nossa vontade – aquilo que tínhamos feito do nosso talento primeiro. Se temos a oportunidade de retomar como fez minha mãe hoje, partimos do zero. Não temos nada, só perguntas, de novo, como no começo. Só incertezas. E isto é muito bom para os assistentes de uma palestra, estarmos todos juntos conquistando o conhecimento com o palestrante e não de boca aberta esperando um mingau doce.

Hoje assisti a uma palestra muito boa, cheia de perguntas frescas e reais. Perguntas de quem não sabe de verdade. Nada retórico. E foi maravilhoso!

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.