Discernimento

10 junho 2014, Comentários 0

reality_tvSomos fruto de escolhas. Nossa escola foi nossa família que escolheu, escolheram antes até: o que vestiríamos, onde nasceríamos. dormimos durante longo tempo no colo dos nossos pais – se tivemos sorte, e no colo deles eles nos levaram para onde queriam. Quem tem filho adolescente sabe como é ouvir ‘mãe, por que você não me deu isso ao invés daquilo?’ ‘Por que você não foi morar não sei onde comigo?’ ‘Por que não me ensinou tal coisa?’.

É de se agradecer. A pessoa vai fazer escolhas a partir de si mesmo.

Visite esta sensação: imagine que seus pais se tivessem mudado para um país que você absolutamente não conhece hoje, logo depois de você ter nascido. Não pense Europa nem Estados Unidos, porque nós estamos permeados dessas culturas dentro do nosso próprio país. Pense Laos, pense Burkina Faso, pense no nome de um país que você nem sabe se existe ainda ou se já existiu. Pense em um que você não tenha certeza de onde fique no mapa.

Lá a língua é outra, vestem-se de maneira diferente, jogam outros jogos, praticam outras formas de religião. O que você pensaria das pessoas que são seus amigos hoje, mas que certamente você não conheceria se morasse lá tão longe? O que nós pensamos deles?

Olhe para o modo com que se vestem. Olhe para o modo com que falam, se andam de mãos dadas, se se sentam no chão para amassar a comida antes de a colocar para assar como pãezinhos ao redor da trempe. É frio lá? É calor? O que comem e a que horas, o que bebem e o que falam é diferente? Faria diferença ter nascido lá?

Será que lá eles são nômades? Será que você conseguiria ser responsável pelo setor de vendas de uma revista como você é hoje se tivesse nascido lá? Será que você conseguiria que seu filho estivesse fazendo um ensino médio profissionalizante na área de informática se você morasse lá? E como você se relacionaria com seus parentes – com os mais velhos, com os da sua geração, com os das novas gerações? Teria mais proximidade? Menos?

Você acha que faria sentido assistir um filme americano no sábado a noite para um grupo como esse? E o que significaria para este grupo assistir ‘Harry Potter’, ‘Quatro Casamentos e um Funeral’ ou ‘No Limite do Amanhã’? Por quem são feitos estes filmes? Que efeitos tem sobre nós? Por que os achamos normais, interessantes? O que diz de nós os filmes que assistimos?

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O que quero dizer é que estamos cercados de uma tal maneira por nossa cultura que não nos damos conta dela. Somos implacáveis julgadores do modo de vida alheio porque acreditamos piamente que o nosso é o certo, é o melhor, é , pelo menos, o mais ‘plausível’… Será?

Tudo foi escolhido para mim, depois, eu escolho. Mas eu escolho o meu caminho. E o caminho dos outros? Tenho para mim que a gente deveria deixar as pessoas em paz. Basta de dizer a elas o que ver ou o que fazer. Basta de querer mostrar a todas as pessoas ‘o caminho.’

E nem creio que haja tantas pessoas assim que lucidamente abdicariam de si mesmas para seguir nossas palavras. Se houverem e a gente se colocar na posição de ser seguido, certamente estaremos cometendo um grande crime: estaremos destituindo a pessoa de sua capacidade de discernimento.

Ou, na verdade, estaremos somente nos iludindo. Ainda que eu levasse mil anos seguindo uma ideia que não tenha passado por dentro de mim de alguma maneira, soaria um sino no momento em que o caminho não me parecesse correto – a partir das minhas próprias medidas. E eu estaria novamente sozinho.

Bom, nós estamos maravilhosamente sozinhos, na verdade. Alguns assistindo filmes e fingindo que estão assistindo a própria vida. Só que a vida acontece dentro. A verdade fala dentro e clama por discernimento. E agora, na verdade, fala tão alto, que precisamos erguer o volume dos filmes para poder ignorá-la.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.