Direção e Sentido

28 abril 2014, Comentários 0

SantaCruz-CuevaManos-P2210651bPassamos por tantos eventos nessa nossa vida sem nunca parecermos estar preparados para ela. Poderíamos dizer que a escola nos ajuda, mas saímos dela e não estamos plenamente formados. Somos afinal uma espécie que não se forma plenamente nem por ter corpo como o têm os minerais, nem com o crescimento, como os vegetais, nem com a reprodução, como os animais e nem com a cultura, como costumamos nos preocupar em ter e garantir aos outros humanos das novas gerações. Vamos carregar sempre uma certeza de estarmos inacabados, uma inquietude.

Estamos fadados a assistir por muito tempo a seres humanos mais antigos, e vamos tentando descobrir dicas de qual é, afinal, o rumo da nossa existência. No início nos entusiasmaremos com a capacidade dos nossos pais e seremos capazes de imitá-los ficando de pé e andando. Ficaremos pasmos com a sua capacidade de entoar palavras e conversar e nos esforçaremos por sermos capazes de fazê-lo também. E finalmente desconfiaremos de que além da fala das pessoas que nos rodeiam há também uma elaboração interna que imitaremos dando a luz nossos pensamentos.

Mais tarde teremos a oportunidade de conhecer a cultura que atravessa os portões da casa e garante as relações pelo mundo. Saberemos dos caminhos da humanidade no tempo e no espaço. Conheceremos os frutos da mente humana sobre a natureza e como os transcendemos com a nossa capacidade pensante. E vamos passear por este universo completamente imersos nas artes do homem.

Então nos veremos convidados a participar deste mundo. Veremos que entre os homens existem talentos e eles se debruçam toda uma vida sobre seus talentos, e levam os limites do conhecimento humano além e além com um compromisso com o que é correto e são. Teremos a ânsia de dedicação como cada um dos luminares que virmos com suas profissões levadas com amor e seremos capazes de ver como cada um se torna bom naquilo a que se dedica e isso porque pode se apoiar nos outros que estão a sua volta – profissionais sempre a serviço da humanidade.

E seguiremos um caminho. Ao olhar para fora e galgar nossas metas vamos nos adonando de nós mesmos, nos apercebendo das nossas capacidades pessoais e limites e vamos nos esquecendo um pouco do modelo dos outros. Não imitaremos mais, teremos dentro de nós mesmos nossa própria bússola. Apaixonados, sairemos pelo mundo tentando achar um caminho que nos leve àquele norte que ela aponta.

Neste momento nossa certeza não está nos modelos, mas na existência da bússola. Não há mais a quem seguir, por vezes nos sentiremos incompletos, inseguros e hesitantes. Sempre nos lembraremos dos adultos tão certos de seus caminhos que nos trouxeram até aqui e nos dedicaremos ainda mais e nos debruçaremos como eles se debruçavam com profundo amor e com grande compromisso.

E sozinhos, nos descobriremos egoístas e pensaremos que fomos enganados e abandonados a nossa própria sorte. Desconfiaremos da nossa bússola interna sempre apontando para frente, para um norte num horizonte vazio.

Daí então colocaremos ela de lado, olharemos a nossa volta a quantidade de pessoas que precisam do nosso cuidado, da nossa dedicação e do nosso talento. E viraremos então as costas para as nossas necessidades pessoais. Pararemos nossa caminhada infinita e ignoraremos as frustrações. Daí em diante atenderemos a todas as pessoas sem distinção, sem críticas, sem reservas e sem ansiedade.

Lançaremos nossos olhos mais além em busca de uma inspiração mais alta que o horizonte. Seremos capazes de nos acalmar e dali seguiremos. Calados, serenos, tranquilos lá adiante, perceberemos que passamos uma vida seguindo a bússola e experimentando tudo o que nos oferecia a Terra e o que estava no seu horizonte – e este era o objetivo: experimentar.

Depois era preciso despregar-se do chão e rumar para o alto.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.