Dias de baixa

6 dezembro 2013, Comentários 0

campo de trigo 1888Você está mesmo no meio de uma guerra. Não é a toa que a gente diz que batalhou o dia todo. A vida é mesmo uma batalha. Se fossem apenas aquelas: tolerar o chefe da repartição, não meter a mão no bolso do outro, não trair, estaríamos seguros e contentes. Estou certa de que muitos já estariam exigindo o seu quarteirão no céu. Mas não é assim.

Dentro de nós há mais oportunidades de perder do que há fora. Podemos repetir a mesma jornada durante trinta anos: saímos a mesma hora, vamos pelo mesmo caminho, entramos no mesmo serviço, falamos com as mesmas pessoas. Mas dentro de nós há um circo de humores e ânimos sempre diferentes. Há dias em que o sol brilha e você reconhece em cada colega um irmão de caminhada, na sua família a Graça, na casa onde você mora a tranquilidade, no seu trabalho um propósito.

Há dias, porém em que se acorda com o pé esquerdo. O café está amargo, o céu cinza, a mala pesada. Há dias em que todos os telefonemas serão inconvenientes, em que ninguém vai dar ‘bom-dia’, em que não se quer ler ou saber de mais nada.

Mas e o ideal? A sua vontade de mover o mundo? Seus empreendimentos? Seus amores? Ainda há gente te esperando para mover a alavanca. Mas você está parado. Não há graça nas crianças, não há graça nos passarinhos, não há graça na música. Você está surdo, cego pra vida.

Tudo bem, hoje é um dia de baixa. Você está de férias do seu propósito maior. Mas não se acostume. Não se esqueça que você chegou carregando um saco de promessas, que todos estavam esperando pela revelação que vai sair da sua boca. E vai, mesmo. Mas você vai ter que empunhar a espada e lutar ainda mais amanhã.

Estendida no seu caminho há uma linha vermelha. Seu fio condutor. Hoje você acordou distraído. Não trouxe material para estendê-la além. Esta é sua tarefa diária: fechar os olhos para ouvir a demanda. As palavras que são segredadas só para você e que ninguém mais vai ouvir.

Respire. Você recebeu de presente tudo o que você é até aquela célula mais remota de que você não tem nem notícia. Tudo o que é inteligente e harmônico em você foi presente. Você tem um investimento desde o início dos tempos que te apoia os passos.

Olhe a sua volta. Está todo mundo na expectativa de uma palavra sua para levantar e ir refazer o mundo desde o zero, em cada detalhe. Só você conhece o caminho. Só você sabe a estratégia. Não desista porque hoje o sol não brilha. Em você brilha o sol. Caminhe e para frente.

Mais do que as pessoas, o Universo inteiro tem os olhos voltados para os seus passos, para os seus pensamentos, para as tuas palavras, para o que você faz com suas mãos. Todos estão contidos porque você sabe de alguma coisa que ninguém mais, absolutamente ninguém mais sabe.

Agora respire de novo. Ponha uma meta para este dia de baixa acabar. É hoje e só. Amanhã você vai abrir os olhos de novo imbuído de toda a força que mora em você. Amanhã você estende a linha vermelha adiante. Não se demore. Não existe ninguém dentro do espaço – o mais remoto que você possa imaginar, ou mais perto de você – ninguém sabe do que você deve fazer. Lembre-se da sua tarefa maior e não adormeça neste seu dia de descanso.

Pode acreditar: há filas de pessoas nem nascidas ainda que esperam colher o que você está semeando. Volte ao trabalho.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.