Desvelar e Revelar

4 julho 2013, Comentários 0

gustave caillebotte os raspadores de pisoEstou limpando o chão da minha casa. Quando viemos morar para cá nós decidimos manter o chão de madeira. São tábuas de assoalho daquelas de 9 centímetros de largura que tem às vezes uma emenda no comprimento. Eu gosto muito. Para conservar a gente passa cera. E como cera é demorado, adotamos o uso da cera plástica – um líquido que se espalha rapidamente com pano. Só que, com o tempo, deixa uma placa seca transparente sobre o assoalho que fica quebradiça e que se rompe se a gente arrasta qualquer coisa por cima, e mostra o contraste entre a madeira original e a coberta com a cera que está já acinzentada de sujeira dos anos.

Isto foi surpreendente para mim: arrastar um sofá, a mesa e de repente eu ver a madeira limpa por baixo. Dá uma pena de ver a camada brilhante rompida. No entanto você vê ali no meio uma realidade que você já não reconhece. A sujeira dos anos é o mesmo que uma máscara, um véu sobre a versão original.

Enfim, isto me deu um entusiasmo enorme! Chamei uma moça para auxiliar na limpeza, trouxe palha de aço e começamos a raspar o chão todo. É uma felicidade ver o assoalho limpinho. E os cantos, as frestas, atrás dos móveis que há muito tempo de fato, não se movem. O primeiro quarto ficou lindo – levou quase dois dias para limpar. Avançamos para o segundo ambiente – rendeu muito menos. Estava mais colada a cera. Enquanto limpávamos o quarto eu fui atender o almoço. A moça não dava conta dizendo que tinha partes que simplesmente não saiam com nenhum esforço que fosse. Falei para ela que fizesse o meio que os cantos eu faria com paciência, depois.

Eu peguei a palha de aço de noite e fui nos cantinhos e tentei tirar aquela ‘cola’ do canto. Não saia mesmo. Lá pelas tantas, passado das 9h da noite lembrei que se a gente arrastando coisas arrancava os pedaços, podia ser que se eu usasse um estilete para raspar conseguisse tirar alguma coisa. Foi impressionante! Saia muito, saiu tudo, retoquei o trabalho do meio do quarto, retoquei todos os cantos e fui dormir toda doída do esforço e toda feliz da conquista.

A gente fica meio hipnotizada pelas cores. Do cinza brilhante para a madeira amarela. É lindo. E eu fiquei me perguntando quando é que eu tinha deixado de ver a cor daquela madeira. Quando é que eu tinha esquecido que meu quarto era forrado de uma madeira amarela quase branca de tão clarinha. É pinheiro, e no meu quarto tem tábuas bem clarinhas.

Sentei-me na minha cama olhando para o chão encantada de ver a madeira tão limpa de novo e me lembrei que existem muitas camadas de cera sobre todas as coisas. Ficam lindas, brilhantes, protegidas até. Mas vão ficando esquecidas. A gente faz um contrato com cada coisa e cada pessoa na vida. E para protegê-la e deixá-la bonita a gente a cobre com camadas e mais camadas de cera transparente que vai aos poucos ficando seca e velha.

Com isto me dei conta de que quando as coisas ‘riscam’, quando se arrasta um móvel e se rompe a camada brilhante, talvez devêssemos achar bom, finalmente a gente consegue olhar para o original e aí a gente se dá conta que velou a primeira versão e seria bom buscá-la de novo.

Olhe em volta. Não é assim? Quantas camadas estão cobrindo os seus gestos sobre o vestir-se, sobre o comer? Com quantas camadas você escondeu a versão original de si mesmo? Puxe a cadeira com um pouco mais de força, talvez você vá achar melhor do que a encomenda.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.