Desperte

Categoria Educação
10 novembro 2013, Comentários 0

guernicaPor muito tempo na vida da gente a melhor coisa é ficar  na cama. Dormir até tarde nos fins de semana, se der, dormir até tarde todos os dias. E durante o dia embora estejamos caminhando e falando, estamos sempre buscando alguma coisa para nos divertir, para nos tirar da concentração: assistimos televisão, jogamos video games por horas intermináveis, ficamos sentados no computador vendo obviedades ou saltando de um site para outro sem propósito. Fazemos nada ou quase nada para manter-nos despertos. É quase um dormir em pé. Passamos vinte e quatro horas de possibilidades investindo em dormir mais do que o corpo precisa e sair do centro de nós mesmos em busca de diversão.

De vez em quando a gente leva um susto no meio da vida: o corpo reclama de dor ou sofremos um abalo emocional, ou alguma das nossas expectativas na vida não se realiza e estamos diante de um momento de crise. Bom, nos míseros setenta anos que você vai viver, acordando todos os dias com vontade de dormir e passando o dia todo mais dormindo do que acordado você é agraciado mais de um par de vezes com uma crise. Isto é uma graça do céu!

Sim, supondo que você só viva setenta anos, para que você acha que será digno usar este tempo? Se não para um objetivo fora de si mesmo – ‘ser um super herói’, ‘salvar a humanidade’, ‘salvar a terra’, ‘proteger e cuidar dos pobres ou fracos’, enfim – mas para você mesmo, vamos dizer na sua maior concentração egoísta, para que você vai investir 70 anos?

Eu imagino que as pessoas vão dizer que precisam ter uma estabilidade financeira, que precisam estar com a família em ordem, etc, etc. Mas se você está lendo este post, você está diante de um computador ou de um celular, e isto já mostra que você não está desesperado por comer no dia de hoje ou preocupado se vai ter um lugar para dormir. Além disso, você já foi para a escola, sabe ler, escrever e tudo o mais que veio junto quando você frequentava a escola.

Qual é o seu objetivo nesta vida, então? Ver passar os 70 anos é que não, eu acredito. Na beira da cova as pessoas normalmente fazem um exame geral da vida e sempre acham que deviam ter feito mais ou diferente. Estamos juntos nessa. Aproveite a experiência de quem já passou por aí e elimine esta última alternativa que é a de ver a vida passar. Então olhe a sua volta. Só aí onde você mora, mesmo. Não precisa ir ver as favelas das nossas cidades nem os presídios, olhe para o seu vizinho que sofre de câncer, olhe para a dona de casa que mora aí na frente e vive de fazer fofocas, olhe para a velhice do outro lado da rua. Há muitos apelos para a gente arregaçar as mangas e trabalhar, você não responde a nenhum deles?

Você atravessa a rua passando por cima de uma calda cinzenta que drena do esgoto – na sua casa, na sua rua. Há quarenta anos seu pai pescava neste corregozinho e você passa por cima dele de carro, pela ponte que esconde o lixo – dos olhos, não do nariz – isto não te comove? O que você está esperando?

Talvez você seja um empresário, abaixo de você há dezenas de pessoas batalhando pela meta da sua empresa, você é bem sucedido na sua carreira profissional. Não há tempo para a TV, não há tempo para o computador, você não joga, nem se perde das suas metas, porque todo dia é dia de vencer, porque você mata um leão por dia… mas para quê? A que impulso ou desejo você está respondendo?

Também aí você resolveu dormir. A gente dorme indo para a escola, batendo metas de venda, a gente está deixando a vida passar. A hora é agora. Desperte.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.