Desconstruindo Você

16 fevereiro 2013, Comentários 1

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Todas as pessoas passam muito tempo de suas vidas tentando ser alguém. Nós não sabemos na verdade quem somos e nos apoiamos naquilo que as pessoas nos mostram como o mais interessante em nossas atitudes. Talvez você seja boa em línguas, você é excelente em trabalhos manuais, aquele é mais inteligente, um outro mais bem humorado, aquela é tão sedutora, o outro é muito calado, ele é um conquistador.

Somos alvejados por conceitos daquilo que vêem que somos todos os dias, tanto diretamente quando uma tia diz que “ninguém vai resistir ao charme deste moleque” quanto quando indiretamente vamos nos identificando com pessoas em nossa vida e copiando aquilo que admiramos, porque nos reconhecemos ali, ou porque o idealizamos. Muitas vezes fazemos isto sobre personagens do cinema, como adolescentes que se vestem ou repetem trejeitos e falam como seus ídolos. Mas imitamos professores, tios, vizinhos, visitas pontuais. Somos muito abertos quando somos jovens.

Há também a possibilidade de fazermos escolhas baseados em algum conhecimento que tenhamos tido. Isto é interessante. Uma biografia pode nos fazer pender para um lado, um sermão em uma igreja para o outro.

E tudo vai passando. Vai a infância, e vai a adolescência, e terminamos por encontrar nosso caminho. Na mochila levamos muita bagagem que são as imagens que nos ofereceram ou que escolhemos. Na verdade estas imagens não deveriam ser vistas como coisas assim tão ruins. São imagens criadas na perspectiva de um momento, de um certo ponto de vista, olhando para um certo aspecto que nós mesmos mostramos em nós. A gente também vai selecionando pessoas, procurando nelas algo que nos chame a atenção, com a qual nos sintamos tocados.

São coisas incríveis, as vezes pequenas e despretensiosas. Uma vez eu li um livro aos 11 ou 12 anos de idade. Era um libreto sobre grafologia que tinha ido parar em minha casa. Não fiquem na expectativa que eu tenha me tornado uma grafologista. É claro que não! Eu não tinha mais que 12 anos e o livro era bem modesto. Enfim, eu li a respeito de tudo o que tinha lá e duas coisas me calaram fundo e me fizeram mudar literalmente da noite para o dia.

A primeira foi uma reação revoltada, como se o autor soubesse da minha existência e tivesse me provocado de propósito. Ele dizia que se uma pessoa em um texto manuscrito fizer uma mesma letra de dois modos diferentes ela é uma pessoa instável, inconstante. Eu pulei da cadeira furiosa ao constatar que eu era uma pessoa completamente estável na opinião deste autor. E internamente me debatia pensando que pessoas estáveis e constantes significavam pessoas que iam fazer com que o mundo permanecesse o mesmo. Eu não queria ser assim! Eu queria fazer par com os os grandes homens da humanidade, eu queria ser como Guevara, como Ghandi, eu queria ser uma pessoa inconstante e mudar o mundo!

Pois bem, a partir daí eu decidi que os ‘t’ que eu escreveria nos meus textos seriam de duas maneiras diferentes: quando a letra anterior termina para baixo na escrita, o ‘t’ começa lá embaixo. Quando não, começo o ‘t’ do alto. E pensei comigo: ‘Está feito. Não serei mais uma pessoa monótona, previsível!”.

A outra coisa foi que me encantei com o modo da assinatura de um homem que eu considerava naquela época um verdadeiro gênio. “Vou copiá-lo e serei como ele!” e mudei meu modo de assinar.

Somos ingênuos ao pensar que isto nos liberta. Porque no final estamos fazendo nossas próprias escolhas. Que nada. As decisões que tomamos vão construindo trilho para que consigamos caminhar despreocupados durante um bom período da nossa vida. Até uma certa altura da vida achamos ótimo porque temos parâmetros para nos definir: sou inteligente e bonita. Sou original e marcante. Sou firme e determinado. Bom, sou frágil, deselegante e depressiva entram, também, se no caminho algo nos ajudou para isso. Mas no fim, tudo o mais ajuda para que nós nos coloquemos de pé e possamos dizer: este sou eu.

O caso é que depois de caminharmos um tanto na vida quem nós somos deixa de auxiliar no nosso caminhar e nos pesa. Não queremos ser quem éramos antes, não queremos continuar o caminho desta maneira, ser tão duros ou tão moles. Não queremos que pensem que cedemos a qualquer pressão ou que somos aproveitadores. De repente, no meio da vida precisamos nos reinventar. Precisamos nos desvestir dos inúmeros casacos que fomos pondo um por cima do outro e descobrir quem, no final das contas, a gente era.

Com todo mundo parece que é o mesmo. A gente passa a vida construindo um personagem e num certo momento nos cansamos dele e queremos ser outra coisa, queremos ser nós mesmos. E é nesta hora que começa o caminho de volta.

 

 

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    É outra das vantagens da velhice consciente. Posso me vestir, me portar até inconvenientemente, sem máscaras ou fantasias. Os sonhos da juventude não incomodam mais, posso realizar coisas que nem pensava em fazer. Posso entender essa liberdade tão desejada a vida toda e usufruir dela.