De volta para você

24 março 2014, Comentários 0

de volta pra casaNão há como negar que a gente se apaixone sempre. E apaixonar-se é entregar-se a forma que nos encanta e que nós vamos amar. Amar a forma é apaixonar-se. Lá dentro do que nós enxergávamos, vem escondido as vezes, ou simplesmente óbvio, mas ignorado por nossa precipitação, por nossa pressa, por nossa incapacidade de ver, lá dentro está a fonte do que nos encanta e algo que nos inspira o amor.

Eu recomendo uma memória fotográfica para registrar o melhor sorriso, o melhor gesto, a melhor palavra. Porque naquele momento em que você se apaixonou, você foi capaz de enxergar através de uma pequena janela o melhor daquela pessoa. E você vai esquecer disso. E infelizmente aquela pessoa, também.

Primeiro vai correr atrás dessa pessoa completamente esquecido dela, mas tão completamente entregue àquela impressão avassaladora que te assaltou no início. Você corre atrás dela porque não sabe viver sem ela, porque não respira sem ela, porque as cores não te chegam aos olhos, ou a luz, nem música ou som algum te alcança os ouvidos porque você está completamente embebido no impacto da visão daquela pessoa.

Depois você conquista um seu olhar de retorno, um sorriso, um carinho, e a pessoa vai se chegando e tudo em você desperta para o fantástico que se revela através de cada ato, que cada gesto, da companhia. É maravilhoso! Daí você enxerga as cores como se elas se tivessem multiplicado e a luz é ofuscante e brinca com as sombras criando arco-íris em toda parte.

Você abandonaria os próprios olhos, você enxerga o mundo pelos olhos do outro e acha que daí sim, o mundo está perfeito. E ouvir um som se torna completo e é cheio de mais e mais alegria.

Do muito olhar com o olho do outro, do muito ouvir com seu ouvido, o ouvido da gente se renova, e se acomoda, e começa a ouvir novamente. O olho começa a enxergar e em volta do rosto da pessoa amada vai enxergar rugas, que antes não estavam sequer disfarçadas, mas não tinham nenhum significado, mas a beleza do rosto se perde na ruga, na cicatriz, na mancha. Ao invés de ouvir o belo somos engolidos pela agressividade dos sons abruptos, altos, repentinos, estridentes. E ouvimos uma voz desagradável sair da boca daquela pessoa amada.

Que lástima! Cada sentido seu, por muito ter percebido passa por uma intoxicação, por uma incapacidade de juntar o fenômeno ao sentido que antes tinha e aí você se desespera. Você não quer mais aquela companhia, você quer ir embora e quer de novo passar pela mesma sensação que teve no começo. Como se tivessem roubado a pessoa da sua frente.

E mesmo a pessoa amada – se você conseguisse ainda falar com ela – mesmo ela não se lembra que palavras, que gestos, que olhar ela te lançou. Ela já não sabe repetir nada, ela não sabe o que sentia, ou o que pensava. Ela também está perdida.

Agora, durante o resto da sua vida, você vai ter na memória e será o único guardião do melhor momento da pessoa amada que ela jamais demonstrou ou viveu. Você será a única testemunha daquilo que todo o universo confia que vai ver de novo. Mas você é praticamente a única pessoa que sabe disso.

No entanto, você também um dia vai brilhar assim aos olhos de alguém. Começa em um momento inusitado, quando estiver amarrando o sapato, tomando café, na fila do banco. Quando estiver dando uma aula, lavando a calçada, fazendo compras. Nesta hora a única palavra que vai sair da tua boca é a certa. Você estará em conexão com tudo o que é certo no universo inteiro e vai saber o que fazer com precisão e calma. É neste momento que tudo acontece. Que te descobrem, que você se descobre. No entanto esta perfeição se perde, vai embora! Daí, para o resto da vida você só vai ter como meta resgatar-se  . E é tão difícil!

Se correr atrás do melhor de si não é fácil, ao menos a gente pode guardar a memória dos outros. E ser fiel a ela para que lhes norteie o caminho de volta.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.