Currículo

23 janeiro 2014, Comentários 0

LW355-MC-Escher-Drawing-Hands-1948Eu sempre me admiro de as pessoas montarem currículo. De montarem e de mostrarem. E sempre de as pessoas pedirem currículo. Sabe o que é? ‘As obras falam por si’, é o que eu penso. E penso também que a gente deveria ser capaz de enxergar estas coisas, de levá-las em conta. A gente devia olhar para as obras das pessoas e a partir delas perceber se as pessoas tem ou não tem condição de se por em um tal lugar. Não deveria ser assim?

Eu vejo que as obras são a única coisa que envolve as pessoas como um todo. Elas precisam ter a mente plena de alguma coisa que as tenha tocado o coração, e isto tem que ser intenso e relativamente durável a ponto de culminar na materialização, na execução de um trabalho, na obra final. Parece que se não durar bastante não chega a ser feito. Se não tocar o coração não tem motivação pra fazer. Se não existe uma ideia não se consegue imaginá-la pronta, e portanto, não há como realizá-la.

Mas queremos ver currículos que separam as pessoas pelas conquistas acadêmicas, pela quantidade de cursos que uma fez e a outra não. E esquecemo-nos de que as coisas precisam vir para a Terra. A experiência, a realização. As tarefas são, de fato, cumpridas por pessoas que estão vivendo uma relação com um problema, estão apaixonados por aquela tarefa e na tarefa estão se transformando em gente de verdade, moralizando suas ações, cada uma. A experiência faz isto com a gente.

Quem tem talento para alguma coisa acaba tendo mais condição de realizá-la, é claro. Mas segue toda a questão do empenho, da vontade empenhada na tarefa que agrega à obra e ao autor qualidades que antes nenhum dos dois tinha. Nada disso parece ser tão claro assim. O fato é que nem mesmo a gente que está se relacionando com uma tarefa tem sempre absoluta certeza de que aquilo era de fato o que a gente deveria estar fazendo.

Talvez esta seja a maior motivação para se juntar um currículo e dizer, ao menos: “veja, na extensão que eu percorri na vida eu tentei tudo isto que diz neste papel. Tentei dez coisas sem conseguir e tudo pela falta de persistência. Quando me apercebi disso, tentei a décima primeira e persistentemente, consegui. Mas tinha muita gente melhor que eu fazendo o que eu fazia, daí eu me dediquei a estudar como superar meus limites e os da minha concorrência e venci a preguiça, além de muitos dos meus concorrentes. Olhando bem eu vi que muita gente queria fazer o que eu fazia, só que no ponto em que eu estava eu achei que eu poderia ensinar o que eu estava fazendo e ajudar a encurtar o caminho dos mais novos e facilitar a possibilidade de irem além. E venci o egoísmo que ata a gente a concorrer ao invés de colaborar. E agora, estou diante de você querendo fazer alguma coisa que, além de te ajudar, vai me dar a oportunidade de ser alguém melhor.”

Isto tinha que ser óbvio. A gente vai melhorando naturalmente e a experiência vai servindo mais para os outros – e tinha que ser óbvio que, depois de tudo, a gente está sempre no meio do caminho. Precisava ser óbvio que sempre a gente vai ter que aprender alguma coisa, que sempre vai haver experiência para oferecer, também.

O fato é que estamos todos olhando os da frente que já passaram pelo que ainda vamos passar e os de trás que estão para viver o que nós vivemos. Temos a sensação de que é para todos ter as mesmas vivências e passar pelos mesmos caminhos. Talvez seja assim, mesmo, só que de uma maneira um tanto artística na qual a versão de cada um é absolutamente original. Com certeza a humanidade se realiza em cada um de nós também no âmbito profissional, e acontece em nós da mesma maneira que correspondentemente acontece na experiência de humanidade de cada um. Uma experiência de meio de caminho, de transição, de autoconstrução, de conquista diária.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.