Cumprir no mundo

23 julho 2013, Comentários 0

vermeer1Somos a parte da humanidade que está inconformada. Entre nós há rebeldes políticos, religiosos devotados, hippies, donas de casa ‘bicho grilo’, e por aí vai. Queremos que mude o modo de as pessoas se relacionarem com a Terra, queremos mais amor nas relações humanas, queremos piedade, compaixão. Não conseguimos tolerar a crueldade nem a indiferença entre os homens, muitos de nós não as toleram sequer com os animais. Somos melancólicos, muitas vezes, muitas vezes discursamos inflamadamente. Somos idealistas.

No entanto estamos diante do computador. Cedemos horas das nossas vidas inertes sem produzir nada, sem enfrentar nada, encolhidos diante da violência que nos assalta de todos os lados. Tivemos dezenas de boas ideias, damos opiniões sensatas, sempre podemos dar um bom conselho, mas temos teias de aranha a volta dos nossos pés e das nossas mãos desacostumadas ao trabalho.

Eu me pergunto que tipo de substância foi colocada no nosso mingau quando bebês, na nossa água até os dias de hoje que nos impede de agir pelo mundo. Porque vivemos vidas de ideação sem que ninguém ache rastro da nossa passagem em oitenta anos da nossa vida? Será que estamos dopados?

Não, eu não queria que você aguentasse 27 anos de prisão pela liberdade, como o Mandela, não exigiria que você andasse descalso entre gente de terno para negociar a independência, como Gandhi; não queria que virasse as costas para a Família e se despojasse de tudo como São Francisco. Não se trata disso. O que me aflige é que a gente está aqui parado, nós que somos tão cheios de virtude. Por quê? Eu me pergunto. Será que porque já existiram São Francisco, Mandela e Gandhi, nós pensamos que qualquer coisa que possamos fazer vai ser pouco, vai ser insignificante, e não fazemos.

Mas não seria difícil, pense bem. Selecione uma entre as dezenas de ideias que já teve e comece pela grande modéstia de escolher a mais singela de todas as suas ideias. Pense na mais simples de todas, naquela que você desprezou porque pensou que não atingiria quase ninguém, que não duraria mais que poucas semanas, que quase não teria reverberação, sei lá. Pois é, isto pode ser até bom, porque você vai ter que cercar sua ideia de limites claros e esta modestinha já os tem quase prontos! Empenhe-se nela.

Sim, fazer vir ao mundo uma ideia é uma das sensações mais realizadoras, ainda que seja modesta. Lembre-se do que é vencer a louça da pia, lavar o banheiro, o carro, varrer a calçada, fazer o jardim. Tarefas já pensadas e tradicionais exigem de nós estratégias e se as cumprimos já somos parte de um grupo de realizadores. Imagine o que é realizar aquilo que o seu espírito concebeu. Fazer nascer algo que mora no seu íntimo e que está criando bolor por falta de coragem ou por medo, ou por preguiça.

Bom, tome esta tarefa e um papel e aponte para si mesmo o que você gostaria de fazer e como. Pergunte-se quem poderia te ajudar e em quê. Determine seus meios físicos todos – do quê você precisa? Agora pegue um calendário e cole sua meta embaixo dele. Abra as metas nos dias e nas semanas. De agora em diante você precisará de um tempo diário para dar conta da sua meta. Passe a mão no telefone, convide seus apoiadores e bote o bloco na rua.

Cumpra a meta do tempo, cumpra cada tarefa. E saiba desde agora que no fim ela não sai perfeita. Nada no mundo é perfeito, mas vai existir. E se atingir dez ou vinte pessoas, já foi algo de bom. O que importa realmente é que você está treinando sua vontade, seus músculos, sua ação para te obedecerem quando você quiser ser obedecido. Uma vez que você cumpra esta primeira e modesta meta, você estará mais forte. Aí, o céu é o limite. Aí nos tornaremos uma legião de realizadores entre os idealistas. E isto vai garantir que aqueles nossos primeiros anseios se tornem realidades.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.