Cuidados, direita e esquerda

13 julho 2013, Comentários 0

mysterium-cosmographicum-03Procuro parar quieta para conseguir ouvir o que as pessoas estão dizendo. Eu me compadeço da falta de saída em que as pessoas se colocam ou se colocaram. Me compadeço do castigo em que a gente se põe todas as vezes e de nos fiamos em um sistema explorador e indigno de confiança.

Eu assisto as pessoas se batendo por conta da indisfarçável corrupção. É um frenesi. Há gente atirando para todo o lado. Vamos talvez invalidar nossa eleição para presidente e retirar a candidata democraticamente eleita do posto em que a colocamos. Somos adolescentes descobrindo o mal. Pensamos talvez que seja sua responsabilidade exclusiva a corrupção do país, a falta de atendimento hospitalar, as demoras e ineficiências do serviço público. Ela é uma privilegiada: o peso das gerações de famílias imundas que deixaram atadas as mãos de qualquer governante – através dos privilégios que oprimem e pelo direcionamento do dinheiro – tudo cai agora no colo dela.

Somos herdeiros centenários (para sermos modestos) de uma dúzia de safados grileiros e escravagistas que exploraram a terra e o homem – tudo, todos os homens que estavam diante deles, indiscriminadamente se parte de sua vila, de sua fé, de sua família – uma safadeza moderna que não discrimina ninguém! Roubaram e mataram obrigando mulheres ao silêncio e a submissão. Empoderando gente sem escrúpulos ou sequer humanidade. E hoje colocamos no colo da nossa presidente a responsabilidade de tudo isso.

Sempre que me frustro com nossos governantes eu penso: é preciso escolher melhor. Mas quem? Não posso dizer que eu amo o governo da Dilma em tudo e assino embaixo de todas as decisões do Lula até a última delas. Não. Eu me ressinto de ver políticas antigas que privilegiam a circulação do dinheiro em detrimento do meio. Como se começássemos a tricotar dos dois lados de um novelo – não vai ter de onde tirar recursos mais tarde. Mas como o novelo é grande, a gente faz assim mesmo.

No entanto eu preciso dizer que depois do encolhimento exagerado do Estado e da venda de tudo, até da mãe dos governantes da época do neo-liberalismo. Depois da mesma corrupção, ou ainda de uma pior, porque hoje aponta a dos outros como se a deles não tivesse o mesmo peso. Da safadeza na perda das pessoas que estão na periferia do sistema e irresponsavelmente vendo gente morrer de fome e de sede. Vendendo as suas terras, a sua água, a sua condição de ser independente pela abertura do mercado – “porque ele se regula sozinho” – a custa de quê? Essa é uma política sem compaixão, sem humanidade.

Os últimos dez anos me permitiram assistir uma parte da população que não tinha acesso a nada, a começar a comer e, claro! a se dar conta que comer não é suficiente. E daí para diante há as naturais exigências que vão levar anos para serem supridas. Vai demorar? Talvez bem menos do que os 500 anos que a gente levou para investir nesta situação desavergonhada.

Talvez este não seja o governo dos sonhos, mas como diz Deleuze, há governos que atendem mais as questões enfocadas pelo pensamento de esquerda. Como ele expõe, ser de esquerda é olhar a periferia antes: somos seres de um planeta, num continente, num país, numa cidade, numa rua, numa casa. Minhas necessidades estão dentro desta perspectiva – não posso estar contente se os outros seres deste planeta não estão satisfeitos e contentes, também. Ser de direita é ter justamente a perspectiva oposta: eu na minha casa, na minha cidade, no meu país, no continente, no planeta. Meu serviço é para dar conta do que está no centro antes. Esta perspectiva muda tudo.

O governo do nosso país não é de esquerda. Serve impulsos de esquerda, talvez. Seria absurdo num ato de revolta adolescente a gente devolver o timão para a direita. Steiner diz que haverá um tempo em que não conseguiremos ser felizes a não ser que todos os outros seres da terra também o sejam. É assim que eu quero que seja, também. Ajeitar o movimento de forma realista , não retroceder a uma polaridade que, além de não curar o problema, ainda o agrava.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.