Criar na mente

15 maio 2013, Comentários 0

woodblock print Utagawa Kunisada 1Tenho pensado a respeito dos assuntos que ocupam a mente dos meus conhecidos. Tenho refletido sobre o que lhes fica cozinhando, aquilo que constitui o caldo passivo de ideias e imagens que lhes habita os pensamentos.

Antigamente só se você conversasse com uma pessoa, ou convivesse com ela, ou pelo menos se a visse falar você saberia o que habitava a mente de uma pessoa. Bom, hoje existem as redes sociais: as pessoas publicam e compartilham aquilo com que tem afinidade, comentam com certa espontaneidade e livremente e nos fazem a todos nós audiência para aquilo que lhes está ocupando a mente.

E isto é muito significativo. Eu me preocupei durante anos por ouvir na televisão  a repetição de barbaridades. Vi novelas incluírem em seus assuntos temas que só caberiam ser expostos a noite. E primeiro a das 7h passou a exibir temas pesados que se viam na das 8h, depois a das 6h e finalmente eu passei a assistir as mesmas cenas depois do almoço. Os jornais nunca tiveram censura, eu acho. São inspirações para pesadelos e medos diurnos. É como se estivéssemos cercados.

Portanto eu vi com simpatia a abertura da internet para mais gente. Primeiro profissionais, depois os jovens em geral e hoje há gente de toda a idade – de crianças a idosos lidando com esta realidade. Não que o conteúdo da internet fosse muito promissor. Mas as pessoas estavam se apropriando dela. Vi então  com ainda maior simpatia que as pessoas passaram a ter jornais pessoais, publicados por outras com quem têm amizade nas redes sociais. Recortes das próprias vidas destas pessoas que elas propõe serem vistos por todos que queiram ver.

Depois tive uma certa decepção ao perceber que o conteúdo geral do que se diz na internet casa muito com aquilo que se repete na tv. Isto é algo triste. Os sentimentos gerados pelas ideias que se tem espalhado são tão vis ou mais vis até do que aqueles que geravam a televisão. As pessoas não se libertaram, elas simplesmente passaram a reproduzir aquilo que lhes polui a mente em seus perfis das redes sociais, ou compartilhar aquilo que é semelhante ao que pensam, nas redes. A qualidade não ficou muito melhor.

E há muita coisa horrorosa neste mundo. Violências de toda a ordem: violências contra pessoas, contra animais, contra culturas, contra a liberdade ou contra a justiça. Há tristezas muito fundas, desespero, carências. As pessoas continuam como sempre em infernos de que elas mesmas se cercaram e alimentando e reafirmando as ideias infernais de outras pessoas.

E eu não posso compartilhar destas coisas. Eu gostaria de que as palavras más desaparecessem do nosso repertório. Eu gostaria de que as pessoas se libertassem das imagens pessimistas e de azedume que destroem a possibilidade mesma da libertação. Eu gostaria de poder semear através das palavras e das imagens conteúdo sobre os quais as pessoas pudessem se elevar. Eu quero que as pessoas sejam impregnadas de pensamentos e imagens positivas para que elas creiam que podem fazer melhor sempre, que podem transformar qualquer realidade.

Este é um princípio meu – não repetir o feio, o mau, o agressivo. Se há iniquidade, corrupção, vandalismo, isto é passado e eu quero poder lidar pessoalmente com as pessoas que não estão envolvidas nestes assuntos. Eu acredito que elas são muitas. A televisão e a internet nos fazem crer em um mundo a cada dia pior. Fazem acreditar que não há um servidor público que preste, que os políticos são gente espúria, que os contratos são sempre desavergonhados, que todos estão querendo tirar proveito uns dos outros.

E há estas coisas na nossa própria história. Uma vez eu fui roubada. Uma vez me enganaram. Picharam o muro da minha casa. Acontece com todo mundo. Mas a gente tem que pensar que o que acontece foi antes criado na mente.

Muitas pessoas vão nascer com olhos novos, com mãos limpas e corações puros. E nós não podemos ficar repetindo em seus ouvidos que só existe tristeza no mundo. Tudo caminha para melhor. A gente tem que dar a oportunidade das coisas boas acontecerem, criá-las na nossa mente e permitir que vivam.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.