Contra quem?

20 fevereiro 2014, Comentários 0

de_la_tour_MadalenaUcrânia, Venezuela. Afinal quem está contra quem nestes conflitos? Não somos todos povo feito de gente que tem mãe e pai e filho? Não somos uma sopa de famílias e destinos com amores e desejos, com esforços e vontade de ser feliz, sempre? Acaso está alguém apartado desse grupo?

Eu assisto todo dia na minha casa defesas a este e àquele grupo de manifestantes, ou do governo. Ouço fora de casa, também e fico pasma. Fico pasma porque a gente abdica do essencial que é a sobrevivência e a compaixão para nos colocarmos atrás das barricadas. Para lançar primeiro o coquetel Molotov, para protegermos as nossas mulheres, velhos e crianças. Naturalmente, porque as mulheres, velhos e crianças do outro grupo pouco nos importam e a eles se somam ainda as centenas de moleques descabeçados que empunham armas fantasiados de soldados e imaginando que estão defendendo alguma coisa nobre.

Favelas no Rio de Janeiro, trânsito em Curitiba, stress em Tóquio. Caímos mortos e os que caem mortos estão na vantagem, porque estes não tem que decidir mais quem é que deve morrer, ser torturado, explorado, humilhado. Quem vai ser preso nu aos postes e quem deve chorar – os de lá ou os de cá.

Estou farta de escolhas estúpidas quando estamos todos caindo por culpa, por vergonha, por insensatez. Somos os próximos na lista dos que sofrerão a pior desgraça e antes mesmo de que qualquer coisa aconteça já providenciamos nossas armas, nossos esconderijos, para nos afastarmos das ameaças, da maldade.

Quem vai contar a nossa história? Os que defendiam os governos de direita ou os que defendiam os governos de esquerda? Quem é mais culpado? O governo de direita quando manda matar os revoltosos ou o de esquerda? Quem é mais canalha? As mãos que investem no armamento do governo ou as que investem na propaganda demolidora da ordem pública?

Mas há governo que seja confiável? Há alguém que não te decepcione? Existe?

Quem já ouviu:”não confio nem em mim mesmo porque já cometi violência, já fui mal, já fiz injustiça”.

Mas qual era a meta, afinal? Não era sermos todos felizes e cuidarmos da terra que nos acolhe, não era dividirmos nosso pão e cuidar do agasalho de todos? Não era assim que a gente devia prover a comida para todos e eliminar o risco de sofrimento de todas as pessoas?

Onde é que a gente se perdeu? Por que não é mais importante se estão todos saudáveis e felizes no dia de hoje? Porque sempre vai estar na frente a minha razão – que é a certa, claro! sempre a frente da razão de todos os outros? Por que eu posso me aliar a uns e pisar nos outros e isto se justifica porque, afinal, estes não estão certos.

Tem aquela velha história que, depois de levar pedradas, quase todo mundo se lembra. Está na bíblia no livro de João, capítulo 8. ‘Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.’

É isso. A gente vive na falta de compaixão. Queremos punir os erros dos outros e vivemos ingenuamente pensando que, enquanto punimos, restauramos a ordem. Mergulhamos na violência da palavra, difamando, duvidando, expondo. Não existe cura para a calúnia a não ser o perdão. E nós vamos ter que contar com ele! Nós, de longe, na esterilizada segurança de nossas casas, atrás das telas dos nossos computadores somos os melhores juízes e atiramos pedras. Eles, atrás dos escudos e lançando fogo uns contra os outros estão adormecidos pelo impulso do medo e atiram, e matam, e subjugam pensando que fazem o melhor. Eles atiram as pedras reais.

Eu faço uma prece: que cada um consiga olhar a sua volta e perceber quanto de amor mais ainda será preciso. Que assim seja.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.