Consciência

29 março 2013, Comentários 0

a-lady-writing.jpg!xlMediumChove e é noite. Depois de 6 horas na cama não posso mais ficar deitada. Mas não posso acordar o resto das pessoas da casa. Leio, limpo a cozinha sem fazer barulho. Uma atividade vai sendo colocada atrás da outra para me sentir ocupada, para não me sentir vazia. Mas não há mais nada que eu pudesse fazer agora, logo nesta hora da noite, no meio do silêncio pontuado por gotas da chuva lá de fora.

Mas a vida inteira é igual ao momento de agora. Não  há só esta noite nesta casa, no meio deste silêncio. De fato a vida toda não tem propósito a não ser o de se estar no meio das pessoas vivendo. Para alguns a vida é um rosário de tarefas a serem cumpridas: lavar, passar, arrumar se é em casa; bater ponto, repetir nas indústrias; bater ponto; repetir nos serviços de toda a sorte.

Dormimos a vida inteira tentando achar apoios ou disfarces: “Preciso terminar a escola!” “Preciso fazer faculdade.” “Preciso cumprir minhas tarefas do dia.” “Tenho que cumprir o contrato.” “Isto não se escolhe, se cumpre”. E no meio disso, muito de vez em quando estamos acordados enquanto os outros dormem.

E vemos que não há nada que deva mesmo ser feito. As coisas são feitas por amor. Porque queremos que os outros tenham conforto, carinho. Talvez por isto valham a pena.

E as pessoas nem percebem assim com tanta clareza o que recebem de nós – e isto não seria necessário. Você duvida? Pense na roupa que veste, na cadeira em que senta ou neste aparelho que está diante dos seus olhos. Tudo isto é seu trabalho que realizou para poder usar? É raro que haja entre nós um que possa dizer que sim. Trabalhamos para os outros e nem nos apercebemos que estamos rodeados dos trabalhos que os outros fizeram para a gente – raras vezes sentimo-nos gratos por descobrir entre os inúmeros frutos do trabalho alheio que nos cercam, um que nos deixe especialmente contentes.

Seria falta de gratidão? Talvez, mas vivemos em um tecido de oferta de talentos e tarefas cumpridas.

No entanto, no meio da noite, na quietude e na solidão da noite eu percebo que nenhuma tarefa precisa de fato ser feita. Não precisa ser feita agora. Não precisa ser feita por mim. As coisas que fazemos podem ser presentes para os outros, mas não podem ser grilhões para nós, nem disfarces para não prestarmos atenção a vida, nem obrigação. Deveríamos poder fazer as coisas como rituais e não propriamente como cumprimento de tarefas. Mas como?

Paro de cumprir as tarefas diante do computador. Paro para poder olhar para mim. Mas o que me colocaria exatamente no centro de mim? Não egoisticamente no centro de mim, mas tão no centro de mim que eu pudesse simplesmente descansar e contemplar. Sem medo, sem ansiedade, sem ir atrás dos outros ou de qualquer disfarce.

Ultimamente tenho proposto para mim a meditação. Sentar ao pé de mim mesma e contemplar a minha biografia, contemplar a perspectiva da minha vida, observar o mundo no seu caminhar sem terror, sem fatalismo, também sem entusiasmo exagerado, somente com a certeza de que o mundo caminha em ordem, tranquilamente, sob o olhar de seres com consciência mais ampla que a minha e que tem propósitos completos e não fragmentários como os meus. Confiantemente.

Tenho proposto para mim deixar a pessoa que eu sou, com a idade que eu tenho, meus compromissos, meus conhecimentos, minha filha, pais, marido, irmãs, família. Tudo o que me faz sentir pertencente ao mundo, cheia de tarefas a serem cumpridas. Deixo tudo isso de lado e reconheço sem susto que não existe nada de fato, que a gente faz as coisas na hora em que quiser e por amor somente.

 

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.