Conquistas

10 fevereiro 2015, Comentários 0

Portinari Menino com DiávaloDizem que a humanidade conquistou já muitas coisas. É conquista da humanidade a ida à Lua, o antibiótico, a energia elétrica. Mas também a roda, a ‘domesticação’ do fogo, a informática e tantas outras que a gente se perde contando.

Estas são as conquistas ‘de fora’, porque há muitas ‘por dentro’.

Mas a gente está cercada! Estenda a mão para o telefone e pense se alguma coisa que compõe o telefone não custou tempo de alguém matutando. Como será que se molda este material? E os metais? Como será que se faz um telefone que funcione sem fio? Bom, o telefone, mesmo. Como é que de fato este negócio funciona? Como é que eu consigo ouvir a voz do sujeito que me ligou mesmo que seja desde o outro lado do mundo?

E imagem. Ah, não! Como é que eu vejo a imagem de um sujeito na tela do meu computador – se mexe – é ele mesmo! E trava de vez em quando … e a gente fica indignado porque a internet trava. Internet? Mas que raio é isso de internet?!

~Está bem, não vamos nem pensar em coisas mais complexas que tem gente pelo mundo inteiro estudando e usando. Não vamos nem mencionar que a gente, mesmo sendo parte desta humanidade que ‘conquistou’ todas estas coisas, bom, a gente não entende nada disso.

Nem mesmo o tecido da sua roupa, que poderia ter sido feito a mão, mas quase com toda a certeza foi feito em uma gigantesca máquina a uma velocidade fantástica, impossível mesmo de se acompanhar. Nem mesmo esta peça de roupa não é uma conquista sua particularmente. A ‘humanidade’ pode ter isto como conquista, mas a gente não.

E vamos aos poucos perdendo o poder que tínhamos. Antigamente qualquer mulher sabia cozinhar, passar, plantar e colher, cuidava dos filhos e fazia comida. Hoje uma é analista de sistemas – compra sua roupa na Zara e come na esquina em um ótimo restaurante diariamente. Ela não sabe cozinhar, passar. Plantar é uma coisa impensável! Ela não conhece as origens nem os processos pelos quais passam os ingredientes da comida até chegar ao seu prato.

O outro sujeito é um jornalista eficientíssimo, escreve como ninguém, mas nunca parou nem um minuto sequer para refletir sobre o fantástico de poder escrever em um computador e enviar para ser publicado sem mesmo ter que tirar os pés dos chinelos.

Não somos os que conquistaram todas as coisas, mas nem poderíamos ser. Quem incorporou a roda ao cotidiano do homem ou quem passou a usar o fogo para cozinhar não foram todos – nem foram todos de uma vez. Foi acontecendo até que se tornou algo ‘popular’.

Certamente é muito importante para a gente conhecer os processos, mas a gente vai ter que se dedicar a uma só coisa de cada vez. Nossa vida tem a limitação de menos de um século e ainda assim, tem todos os percalços até a gente conseguir conhecer alguma coisa e poder desenvolvê-la para o mundo.

Fora – pesquisando e inventando, mas dentro, também. Tudo aquilo que no mais profundo do seu íntimo você conquiste vai ser ‘conquista da humanidade’. Em tudo o quanto você melhorar – ou piorar, infelizmente! – vai ser conquista da humanidade.

Lembre de todos os santos. Nenhum conseguiu dedicar a vida a uma pesquisa, mas conquistou-se a si mesmo!

Agora reflita sobre quem você é e o que você tem feito. Não descobrimos nenhuma estrela, nem a cura para o câncer. Somos pessoas regulares e passaremos pela vida sem que ninguém nos note. Jamais seremos famosos ou notáveis individualmente. No entanto isso não nos dispensa de nada! Somos convidados e o mundo espera de nós que avancemos e que conquistemos o que quer que seja para ser incorporado ao grande arcabouço de conquistas da humanidade.

Todas as coisas são grandes! A tolerância é uma conquista que a humanidade pode aproveitar muito. A Prudência. A humildade. Se conseguirmos conquistar a língua da nossa boca – não comer mais do que devo, não falar mais do que devo – vai ser aproveitado por todos. E tudo o que fizermos, por mais modesto que seja, vai aproveitar muito para todas as gerações que se seguirem.

Não seja tímido. Cumpra com aquilo que você pode e a gente vai te agradecer.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.