Conhec/ser todo mundo

22 outubro 2013, Comentários 0

operarios Tarsila do AmaralConhecendo as pessoas a gente sempre parte do zero. As pessoas são, para cada um de nós, um amontoado de perguntas: mas quem é esse sujeito? O que ele faz da vida? Será que ele tem família? Será que sofre de alguma doença? Qual é o seu modo de viver? De onde é que ele vem? Quais são suas preferências? As perguntas não acabam. Se a gente se distancia um pouco a gente se pergunta da família, da cidade onde mora, do país, da cultura, da idade. Se a gente se aproxima um pouco quer saber de como come, que horas acorda, dos hábitos pessoais, do quanto estuda. E não acaba nunca, esta é a realidade. Cada porta que se abre é uma pergunta nova que se tem a fazer. Mas para quê? Por que é que a gente quer conhecer os outros? Em quê as coisas ficam melhores quando conhecemos uma outra pessoa?

Minha impressão é que, no fim, estamos sempre nos procurando nas outras pessoas. Na verdade as pessoas sempre tem com a gente algumas parecenças e algumas diferenças. ‘Sou homem e ele também’, ‘sou advogada e ele também’, ‘sou casada e ela não’, partimos de nossa própria experiência de vida e olhamos o outro nos perguntado em quê a experiência do outro combina com a nossa e em que ela se distancia.

Este processo é assim desde que somos muito pequenos. Temos dois ou três anos e já nos interessamos por quem a outra pessoa é e em como é que ela experimenta sua própria vida. Talvez muito antes disso até – vamos conquistando aos poucos o que nos pertence como território – vamos ganhando as mãos, os pés, o corpo. Nosso domínio de nós faz com que aos poucos percebamos que não temos domínio sobre os outros. E que existem os outros. Lá pelas tantas nos damos conta de que toda a sensação de conforto e segurança vem dos outros, da mãe, do pai, da tia, da avó. E nós amamos estas pessoas sem questionar nada. Amamos somente.

 Ao conhecer os outros vamos descobrindo novas estratégias de lidar com problemas na nossa vida. As pessoas a nossa volta são então um arcabouço de intermináveis soluções para questões na nossa vida. Quando pequenos nós imitamos os outros simplesmente porque estamos aprendendo a andar, falar, pensar. Mais tarde começamos a colocar crivos: eu aprendo o que os outros fazem, mas eu elejo algumas práticas de acordo com um julgamento meu daquilo que me é adequado e daquilo de que eu tenho que me afastar. Por fim só nos chega como abstração o modo de os outros viverem. Mas ainda sim, na vida adulta, os outros são medidas para nossa vida.

Quando somos adultos somos muito interessados em criticar e condenar as práticas das vidas dos outros. Somos fofoqueiros, muitas vezes, muitas vezes condenamos as pessoas sem sequer olhar o ambiente e a cultura desta pessoa, ou simplesmente aceitar como uma estratégia entre 7 bilhões – não é isto, no fim das contas? Afinal não se vai achar sequer um ser humano idêntico ao outro. E se combinarmos a individualidade de cada um com a infinitude de possibilidades de eventos diferentes estendidos pelo tempo,  a quantidade de versões para a vida é incontável.

Será que conseguimos aproveitar tudo isso? Que de nós é capaz de contar em suas mãos as pessoas que já conheceu nesta vida? Quem de nós pode afirmar que não tirou nada de cada uma destas experiências? No entanto, talvez fosse mais proveitoso se conseguíssemos incorporar com toda a lucidez da vida adulta, com todo o sentimento da adolescência e com toda a força da vontade infantil. Isto poderia dar muito mais agilidade nas nossas vidas, que sempre nos parecem tão curtas para nossa urgência de sermos melhores.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.