Confiança

3 fevereiro 2015, Comentários 0

mulher-regando-jardimDepois de tantos anos, depois de muitas frustrações, você já arranjou sua vida. Você já não sofre mais por querer ser mais do que é. Nasceu em você uma confiança que você nem se lembra de ter semeado. Mas está lá, firme e forte, uma confiança por conseguir olhar em volta e reconhecer sua própria capacidade.

E há que se levar a vida adiante, afinal. Há que se manter as coisas caras, as que você elegeu para manter e ver vivas, há que se dar a chance de novas coisas florescerem, também.

Até mesmo no quintal dos outros.

Hoje você está em um ponto de assistir ao crescimento da horta alheia com prazer genuíno. Sem inveja, nem amargura, nem nenhum sentimento maior que a mais perfeita satisfação de ver as coisas crescerem bonitas. Projetos, empresas, famílias. Tudo deve crescer e bem e você já aprendeu isso.

E você descobriu algo novo: não te custa regar o quintal dos outros – você tem a fonte da água sob seu domínio, afinal, e esticar a mangueira para lá e para cá faz parte do movimento natural da sua vida. Você já aprendeu a regar tão bem e tão cuidadosamente que é como dançar ou caminhar. É como respirar esse alimentar o que está crescendo. E agora você faz sem nenhum sentimento de estar sendo roubada. Não! É assim mesmo. Que aproveitem o que cai de presente e que se faça muito disso!

No fim você tem uma sensação nova de ter muito, de ter muito mais do que no início tudo.

E foi isso mesmo que aconteceu. Durante uma vida vamos nos dedicar a aprender o que os outros fazem e fizeram para poder lembrar do que de fato precisamos fazer. Qual é a nossa missão, mesmo? Depois ir tentando chegar lá. Cumprir esta missão. E serão anos a estudar e a conhecer gente que já conhece os assuntos relacionados ao seu. E ganhar colegas, experiências – nem sempre prazerosas, mas sempre são experiências. Uma vez que você tenha passado por elas, ninguém pode tirar de você.

Lá pelas tantas você se descobre um profissional da área. Uma pessoa segura e capaz que vai, no entanto, colecionar críticas, enganos, frustrações, e no fim vai questionar se você acertou o caminho. Vai olhar para trás para o ponto quando você se perguntava qual caminho tomar e pensar: ‘eu errei!’.

Talvez você tenha errado, afinal. Mas há duas qualidades importantíssimas neste momento: a primeira é o que nos revela que o curso da vida não tinha uma meta final. O curso da vida era que devia ser vivido sempre da melhor maneira possível. Isto é algo precioso.

Não interessa portanto, se você acertou ou errou o caminho, o importante é como você o percorreu. Você certamente se encontrou com muitas pessoas que tiveram seus papéis na sua vida. Uns de grande impacto: sua esposa, por exemplo, ou seu marido. Gente que você teve oportunidade de ver nascer – um filho – uma pessoa que vem para ficar te assistindo e te imitando em tudo!

Talvez você nem consiga continuar com o pai ou a mãe desta criança e vai haver o momento de colocar a mochila nas costas da criança, lhe dar um beijo e desejar um bom fim de semana. Mas como você vai pronunciar estas palavras? Com que olhos e com que sorriso?

Ou um chefe, um subordinado, um caixa do banco – encontros, encontros – isso vai fazer uma boa parte da nossa vida. E as coisas que vamos fazer – nossos motivos e os ideais que estão por detrás. Esta é, aliás, a segunda qualidade preciosa do caminho: aquilo que nos guia profundamente em cada gesto que fazemos.

De agora para diante não tem muito o que buscar, ou se tem, a busca mesmo pouco importa. O que importa é o jeito que estamos vivendo esta busca.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.