Como os Carnavalescos

12 fevereiro 2013, Comentários 1

carnaval

Amanheci hoje com o grito de um homem. Estridente mas baixo, longo. E como eu estivesse meio dormindo me assustei. Não sabia o que era. Mais acordada percebi que meu pai estava assistindo bem baixinho na sala o Carnaval do Rio, e que o grito era do puxador do samba que eles estavam apresentando na avenida.

Levantei e me lembrei de alguns afazeres – mas é carnaval e o Liceu ainda não está aberto para alunos. De fato as aulas que foram projetadas para serem dadas, as oficinas e os cursos, estão como que em estado de dormência. Estado de potencialidade anterior a aplicação. Estamos diante da largada, atentos.

É assim: você passa uma vida estudando, chegando perto e cada vez mais perto do que você vai fazer bem na sua vida. Todos os dias são dias de exercício, de errar de novo e de ir procurando o foco, aquilo em que você faz a diferença. E talvez cedo na vida você ache um trilho para seguir. Muitas pessoas acham, mesmo. E vão ser pintores talentosos, carpinteiros de mão cheia, cozinheiras, médicos, gerentes, psicólogos. A gente vai terminar por seguir uma profissão em que a gente se reconheça útil ou eficiente.

Há gente que não encontra. Termina por errar o caminho, se torna bom em alguma coisa não tão útil para o mundo ou para si mesmo. Termina por justificar sua escolha porque tem que continuar a pagar as contas em casa. Para estes a vida se abre em muitas facetas, mas rediga aquela única pela qual continuamos satisfeitos por toda a vida, ela não dará nunca a sensação de plenitude que tem os que acertaram os trilhos para seu próprio talento.

A coisa interessante no destino das pessoas é que as portas nunca se fecham. A vida é longa o suficiente para as pessoas se aposentarem e decidirem ir atrás de outro rumo. Ou antes mesmo, pedir a conta e enveredar por uma tarefa completamente diferente e aí, sim, plena e satisfatória.

Quantas vezes você já ouviu falar naquela senhora que tinha 10 anos de trabalho no banco, ganhava bem e resolveu largar para criar os filhos e ser dona de casa. Hoje ela é uma prendada cozinheira, a casa é um brinco e ela não olha para trás. O filho está na faculdade, é amoroso e mostra em cada gesto que vive em um lugar completo – o trabalho da vida inteira da mãe dele que se concretiza nos ritmos do todo dia. Na comida, nas roupas bem cuidadas, na decoração impecável da casa, nas fotografias espalhadas por toda a parte. No fim esta é uma mulher que não aparece, mas que construiu uma rede estrutural para a vida da família toda.

Ou talvez você tenha ouvido falar de um homem de meia idade que trabalhou como executivo por mais de vinte anos e largou tudo para ir abrir uma pousada em, sei lá, na Praia do Felix no litoral de São Paulo. E hoje vive feliz varrendo as varandas, pintando as janelas para a manutenção da pousada. Ele recebe estrangeiros porque sabe falar inglês e os leva surfar na praia da Trindade. Para ele isto é a coisa mais importante e satisfatória a fazer. Os hóspedes recomendam volta e meia a pousada que ele abriu e ela vive cheia.

Tem ainda a possibilidade de, no meio desta febre que é uma profissão desgastante o sujeito dar de cara com uma urgência no mundo a que responde o seu talento. Aí ele vai fazer um serviço paralelo e ser feliz nos fins de semana. E planejar para a aposentadoria abrir um espaço para lidar com aquele serviço que o preenche inteiramente.

O fundo de tudo isso é que o que nos motiva é o que nos deveria levar ao trabalho. Devíamos fazer como os carnavalescos que amam tanto aquela semana de samba que eles passam o ano inteiro roubando cada minuto da sua semana para empenhar-se naquilo que fazem melhor. E ser felizes, simplesmente.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria

    “Deixe a vida me levar” como diria o sambista. Afinal, é Carnaval!