A Clareza e o Retorno

5 maio 2014, Comentários 0

Quinta da RegaleiraEstamos em um ponto especial da nossa vida. Estamos absolutamente conscientes de que não podemos ser como temos sido. É preciso dominar o que nos domina, é preciso acolher o que nos maltrata, é preciso transformar, melhorar, compartilhar estas conquistas .

Ninguém mais pode dizer de si mesmo que está contente com o estado das coisas e basta. Não existe uma pessoa assim. Não existe isto como verdade.

Estamos justamente no meio do caminho. Tivemos recentemente esta clareza: olhamos como se olhássemos agora através de uma lente de aumento o escândalo da nossa insensibilidade. Nosso comportamento que antes achávamos tolerável, regular, possível, agora nos parece indecente, porque é mesmo. Não há meios de permanecer neutro. É preciso tomar posição, corrigir a posição.

E isto é algo para se comemorar. Só que, depois da clareza, tem o retorno. É preciso ver de onde viemos e que viemos de escorregador parar onde paramos. Estacionamos no vale depois da brincadeira de descer sobre uma prancha – rindo e escorregando. Tudo pela Graça! E estacionamos agora cheios de presentes e à volta dos presentes vemos também que há muitos outros de nós.

Antes não víamos ou dormíamos nas brincadeiras da descida. Agora vemos. Somos muitos e na brincadeira terminamos por nos derrubar, por nos arranhar, por nos pisar e machucar. Ao descer isto não era nada. mas agora dói.

E vamos nos dando conta dos outros, do mundo, de nós mesmos. Antes não nos apercebíamos de nada e pisar os outros não significava mais do que ganhar uma posição mais confortável, agora é muito claramente maltrato.

Antes não percebíamos vida no mundo, mas agora surge a palavra degradação com um significado ensurdecedor, exigente, impossível de ignorar.

Agora carregamos culpa por todos os atos que praticamos e nem nos lembramos de termos estado inconscientes e adormecidos. Nos cobramos com furor e nem sabemos o que fazer para compensar o mal que produzimos.

Bom, estamos a meio caminho. Resta a subida ladeira acima. Contra o peso. Sem quem puxe. Pelas próprias forças teremos que galgar o morro.

Primeiro, talvez, precisássemos adquirir algumas virtudes básicas. Virtudes pelo motivo claro de trazer força e coragem.

Seremos nós mesmos galgando cada pedra, cada passo acima. E se na vinda tudo foi tão rápido e alegre, na volta teremos tempo de olhar demoradamente para cada detalhe. Nada nos escapará. Nenhum sentimento, nenhum pensamento, nenhuma ação.

Se na vinda ultrapassamos e empurramos para nos esquecer. Agora os arranhões nos ficam por muito tempo diante da face para que nós possamos tratá-los e cuidá-los.

Nada mais passará despercebido. Teremos momentos com nossa angústia e momentos extremos em que não vamos querer mais dar um passo sequer. No entanto, este buraco é o meio do caminho. Para chegar à plenitude do perdão, precisa subir de novo. Para ser capaz de acolher-se a si mesmo, é preciso chegar ao alto.

Ninguém vai receber nada de presente. Temos a mochila cheia. Agora somos convidados a olhar para as coisas e não só olhar, mas querer transformá-las, recriá-las para que haja conforto para todos.

Somos convidados mesmo a ficar um pouco mais e ajudar quem está no buraco ou mais atrás, a subir a ladeira.

Agora já não é mais tempo de competição. Não é mais tempo de ganhar pisando o pescoço do outro. Passamos do meio do caminho. Agora é hora de assumir para si a responsabilidade de tudo que se viveu e do que os outros viveram. É a hora de completar o ciclo carregando os outros como se cada um de nós fosse o Pai. É carregar para os outros e achar isto muito bom.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.