Celebração

22 fevereiro 2013, Comentários 1

varoSentei-me para o almoço de todo dia: todos ao meu redor, nós todos a volta da mesa. A comida colorida, os pratos brancos. Sentei-me alegre e diante de mim estava minha família em alegria, no contentamento da repetição da celebração diária do almoço.

Há uma poesia em sentar-se para o almoço. Antes de comer agradecemos o esforço e o sacrifício. Grãos, folhas, frutos em pratos bonitos e contrastes sensíveis de cores e cheiros, texturas táteis e visuais, de sabores. Quem cozinha brinca com as mordidas que vamos dar: um azedinho no meio do salgado, um amarguinho acolá. Ali um doce de grão, de fruta. Brinca de combinações que oferecem ao paladar surprezas e prazeres, de securas e umidades, de durezas e maciezas, de multiplicidades e homogeneidades.

Antes de comer agradecemos o esforço, o sacrifício e o capricho, a beleza dedicada aos olhos e à boca, mas muito mais ainda o que é dedicado à saúde da alma e ao vigor do corpo. Agradecemos saúde e vida que oferece no cuidado de quem cozinha.

Cozinhar aliás, é sempre novo. Nunca vai acontecer outra vez, porque cozinhar exige a presença de quem cozinha, como respirar. Não se copia, não se repete. Uma inspiração é única, a expiração também. Há que se fazer tudo de novo para se oferecer alimento a alguém. Não há receita que materialize o mesmo ingrediente. Cozinhar oferece beleza em sacrifício pela vida e tudo o que morre na mesa viverá em serviço e contentamento.

Por isso também pedimos ainda antes de comer que quem cozinha receba muitas bênçãos, e ainda que o sacrifício do alimento se transforme em serviço proveitoso. Distribuímos o alimento nos pratos. Os pratos se tornam pinturas arranjadas ao gosto de cada um. Antes de comer desejamos esta fartura para todos os seres.

Pratos bonitos, cada qual com sua medida e sorrisos muitos, brincadeiras, histórias, comentários e conversas saltam sobre a mesa redonda como serpentina em festa de carnaval. Risadas cada uma soando de um jeito. Nos olhamos sempre e a cada pouco com carinho, com cuidado, com respeito. Desde a mais miudinha até o vovô sorridente. Nós todos nos adoramos diante da mesa na celebração do almoço.

Almoço é ritual. Na minha casa é celebrado diariamente entre os membros da minha família. De vez em quando recebemos uma visita, uma pessoa ou várias. Juntamos mais pratos, trazemos mais cadeiras, abrimos mais espaço. Há mais motivos para celebrar: celebramos tudo o de sempre, mas aí ainda celebramos a oportunidade de poder partilhar nosso alimento, de poder ter presentes os amigos que amamos, de oferecer a eles também os alimentos organizados com todo o capricho e desejamos a todos os seres que tenham esta mesma oportunidade.

Não sei se tem hora mais sagrada que aquela em que me sento a mesa diante do alimento bem feito e bem servido e comungo com minha família em celebração para almoçar.

Muitas vezes penso na correria do mundo em que as pessoas se perdem na roda viva das exigências do trabalho diário e da culpa de se afastar dos filhos, de casa, da esposa, da família. Penso na exigência de compensação que resulta em idas a restaurantes e lanchonetes, ou idas a shopping centers que esgotam, maltratam, enfraquecem, desconcentram, perturbam a vida mais do que cuidam dela. Que agridem com suas luzes exageradas e sons exagerados. Com seus temperos mecanicamente repetidos, os mesmos oferecidos para serem colocados em alimentos que não foram escolhidos e talvez nem sejam apreciados como oferenda.

As vezes a urgência e a pressa arrancam-nos do nosso cotidiano a possibilidade da reverência e da sacralidade das celebrações. Claro que não existe só a celebração do almoço. Podemos celebrar tudo e a toda hora. Mas nós nos distraímos a ponto de abdicar delas, de esquecê-las. Não perca a oportunidade.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    Mario Sergio Cortella, filósofo tupiniquim dos bons, escreveu um texto comentando que muitas pessoas vão a restaurantes comer comida” caseira” com suas famílias, e na pressa do dia a dia deixou-se de fazer pamonha. Dá muito trabalho. Cadê a reunião para fazer junto? Comer junto?