Cegueira e Iluminação

28 setembro 2013, Comentários 0

the white dot KandisnskiO processo de amadurecimento do homem o faz ele mesmo. Não. Isto não é assim óbvio. Desde o nascimento e durante o crescimento de uma pessoa ela vai passo a passo se afastando de um conforto de saber tudo sem precisar se debruçar sobre nada, até que ele vai percebendo gradativamente separações entre ele e a mãe, entre ele e os outros, entre ele e as coisas que o rodeiam até se dar conta que está absolutamente sozinho. Neste momento ele se descobre um indivíduo.

A característica da individualidade é esta solidão absoluta em que nos esforçamos por estar. É certo que nos cansamos e muitas vezes queremos férias de nós mesmos, mas nesta hora ingrata descobriremos que dar passos para trás é dificílimo, e que de então para diante só se consegue descobrir a unidade perdida – o paraíso, mediante esforço grande e persistente.

Bom, as criancinhas são míopes – literalmente. Mas não se incomodam com isto. Não lhes interessa ver as coisas como nós vemos. Elas não leem, não fazer observações com os olhos, têm pessoas que lhes provêm o que porventura necessitem e, portanto, não sentem falta de olhos muito apurados. Ao longo do tempo elas vão desenvolvendo o corpo e passam a enxergar com acuidade cada dia maior. Quando não, recebem um par de óculos que lhes revelam o mundo.

Não é assim fácil usar óculos. Quem já teve a experiência de vestir um par de óculos pela primeira vez sabe que é de embrulhar o estômago: tudo muda! As distâncias, o delineamento. Eu tinha astigmatismo além da miopia quando pus os emus primeiros óculos diante dos olhos. Nossa! Árvores ganham folhas, troncos ganham rugosidade, pedras ganham texturas, blusas mostram sua tecelagem. Há letras, buraquinhos, linhas, uma infinidade de coisas que antes não se via. E de agora em diante se estará na condenação do enxergar. Na graça e na condenação de enxergar minuciosamente tudo!

Esta é uma imagem para todos os processos perceptivos no nosso corpo. Vivemos plenamente sem tê-los conquistado, mas uma vez o ouvido distinga notas, babaus! E quando nos apercebemos que há muito no mundo que não conseguimos perceber, aí passamos pela grande febre do querer afiar todos os sentidos. E isto significa ir ‘encantando’ as coisas dentro delas mesmas. Já não enxergamos mais o processo da árvore ou do gramado, vemos as folhas e que elas estão cheias de ranhuras peculiares. Vemos uma quantidade imensa de detalhes e vamos lhes dando valor. Isto nos toma um pedaço grande da vida até que percebemos que fora da nossa pele não existimos. A pele com seus poros e pelos e secura e cor e firmeza e transparência. E viajamos por dentro de nós, mas já agora não percebemos mais que somos tudo e estamos em tudo como na infância, mas somos partes, somos pele, gordura, sangue, ossos, órgãos. Nos perdemos em minúcias e não enxergamos mais nada do que antes era certo e confortável. De tanto enxergar coisas, ficamos cegos.

Então percebemos que sentimos e que, além de sentir, pensamos. Mas é tudo misturado neste âmbito. Cada vez que percebemos com os olhos ou com os ouvidos, nos acometem pensamentos embalados por sentimentos. A gente passa a vida na sopa do sentir-pensar. É impossível deixar de sentir – os sentimentos nos acometem involuntariamente. Vêm do mundo pelo que percebemos ou inspirados pela nossa memória. O máximo que conseguimos é colocá-los de lado e não abraçá-los quando aparecem pedindo atenção. Mas os se os sentimentos não respeitam portões, os pensamentos são entes mais sensíveis a nossa vontade.

E este é um segredo de conquista: separá-los dos sentimentos e usá-los com maestria desvendando os segredos do que os sentidos nos mostram. É como fazer um quebra-cabeças: as dezenas de milhares de peças do quebra-cabeças que você separou precisam ser colocadas cada qual no seu devido espaço e relacionada com suas vizinhas de um tal modo que observar esta imagem ou o objeto revele sua essência e o que ele tem a ver com você, onde é que ele cabe em você e sua relação no universo. A partir da cegueira adquirida pelo muito bem enxergar trilhamos de volta o árduo caminho de volta para a iluminação.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.