Carma e Academia

13 junho 2013, Comentários 0

Floor Strippers - Gustave CaillebotteHá um tempo atrás assisti a uma palestra em que a palestrante indicava-nos alternativas para não precisar ir a academia de ginástica. Ela mostrava que há sempre jeito de se fazer este ou aquele músculo funcionar. São os braços? A barriga? Ora, vá até a feira cedinho e ajude os vendedores a carregar ou descarregar os caminhões. Precisa fortalecer os músculos da coxa? Vá entregar cartas, caminhando!

Rimos muito todos nós que a ouvíamos. Lembrávamos divertidos de que na academia existe uma série que contempla todos os tipos de movimentos inclusive alguns que nós nem imaginávamos antes de pisar lá dentro. Rimos da ingenuidade de se propor que substituíssemos os profissionais que nos atendem e ajudam a despertar nossos corpos sedentários por atividades tais como estas que ela apontou. Foi uma coisa inusitada.

Mas o ponto era interessante. O caso não era simplesmente pensar em deixar pitoresca a hora da ginástica. Não. A questão tinha a ver com um tema muito mais significante da nossa vida e pelo qual passamos dormindo por muito tempo: Carma.

Não pretendo dar conta do tema aqui em dez parágrafos. Muito já se escreveu sobre carma e por gente muito qualificada, aliás. A questão é que existe um aspecto do registro do carma que tem a ver com a ginástica, e que é a ação dos músculos.

Basicamente o carma é escrito pelos músculos e tudo o que fazemos com eles gera rastro, gera inscrição no universo, uma inscrição na nossa biografia. Se amassamos alguma coisa, ela encolhe. Se cortamos, ela rasga. Se falamos, geramos som. Entendimento, se falarmos claramente, talvez desentendimento… em suma, tudo gera uma consequência. Pode ser assim uma consequência clara e imediata ‘bateu, levou!’, ou pode ser uma consequência tardia, uma consequência que ficará dormindo como uma semente por muito tempo ainda para brotar mais tarde. E certamente brotará.

Esta sequência inevitável de ação e reação, a lei das consequências é chamada Lei do Carma. Tudo o que fazemos. Qualquer coisa que fazemos – e também as que deixamos de fazer – gera consequências. Gera Carma.

Considere agora que se cada coisa que fazemos gera carma, é preciso que valha a pena, que, quando a semente vier a brotar, seja um bom broto. Fazemos muito diariamente. Ao acordar nos espreguiçamos, vamos ao banheiro – caminhando, usamos o vaso, tomamos banho, escovamos os dentes. Há ainda algum músculo seu que ficou dormindo? Pode ser que você ainda precise de café, mas o café já vem tarde para a hora que seus músculos despertaram para as ações de cada dia.

Fazer o café – para si ou para todos, vestir-se rapidamente, cuidadosamente, esteticamente – será que faria diferença? Caminhar para o trabalho – ou ir de carro? de bicicleta? de ônibus? Trabalhar em quê? Oito horas sobre um computador mexendo os dedos, sustentando a cabeça, a coluna, falando de vez em quando. Ou oito horas como carpinteiro construindo casas: levantar tábuas, bater, girar vigas, equilibrar… Oito horas como professora universitária. Oito horas como professora pre-escolar – mas com que método, fazendo o quê do fazer das crianças? Oito horas como dançarina… Quem destas pessoas está fazendo melhor para a brotação posterior, e para a colheita óbvia?

Considerar a ação do músculo pode ser crucial quando levamos em conta que os músculos estão registrando nossa vontade mais funda. O músculo executa uma ideia, executa um pensamento, ou executa uma repetição sem vida nem beleza. Um movimento impensado e inútil: repita 60 vezes esta abdominal… Pedale por 20 minutos na ergométrica. Mas o que pode isto semear futuramente?

Será que existe diferença entre usar os braços para lutar box e agasalhar uma criança? Será que é diferente levantar 50 kg de peso na academia e levantar uma casa? Talvez seja assim mesmo que a gente precise estar alerta ao movimento e às consequências do movimento.

Nossos movimentos executados quando nossa consciência está dormente podem ter consequências surpreendentes mais tarde. Inimagináveis, talvez. Talvez consequências desastrosas. Quando vamos colher as consequências dos nossos movimentos? Alguém duvida que sim?

Os movimentos precisam ser bonitos, éticos, úteis. Precisam ser coerentes com a nossa vontade, porque sendo ou não, eles estão neste instante, semeando.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.