Bruxas

21 março 2013, Comentários 0

bruxasReuni-me com algumas outras senhoras para trabalho e estudo. Muito contra meus hábitos, porque de fato fico feliz de ficar absolutamente sozinha para trabalhar ou estudar. Realmente não conheço um momento mais prazeroso do que quando consigo me dedicar a um livro, uma prática ou um trabalho sem trocar palavra com ninguém nem ter ninguém precisando falar comigo.

Mas houve o convite e aconteceu a reunião. Ficamos a primeira vez em uma sala iluminada com uma mesa de centro bem grande e bonita de madeira, e bancos e almofadas em volta sobre um tapete. Uma sala pequena com móveis grandes, cômodos. A sala da lareira – que estava apagada – é verão, afinal. As crianças entravam e saiam e atravessava com elas as risadas e a correria. Eu fiquei em um canto, trabalhando e ouvindo as vozes das mulheres. Eu não sei quanto a elas, mas eu estava experimentando me acomodar entre aqueles outros seres. Seres enormes em que se apoiam seus maridos, seus filhos, suas casas e todos os movimentos das famílias. As mulheres são assim grandes.

Percebi que não existem mulheres fracas. Existem mulheres perdidas, existem mulheres enganadas, mas fracas não há. As mulheres que eu encontrei – talvez pela idade delas, talvez pela quantidade de experiências que já tiveram na vida, estavam lá, sentadas trazendo para aquela sala toda a biografia delas, entre sorrisos, em uníssono.

Senti-me mesmo ouvindo uma orquestra: vários grupos tocando diversos trechos e sempre oferecendo aos outros a oportunidade de se colocar, de colaborar, ouvindo o que os outros tinham a colocar. Não havia regência. Regência era a inteligência feminina de expandir-se alegremente e encolher-se para dar vazão à expansão das outras mulheres. Tudo caberia, era só propor. E como eram mulheres tínhamos a atenção nas crianças, na comida, nos trabalhos, nas histórias que cada uma contava. Fiquei boquiaberta como já existe uma inteligência ancestral disponível para estas reuniões.

Resolvemos estudar um texto sobre o trabalhos manuais e marcamos o novo encontro para dali a duas semanas, em outra casa. O texto é uma palestra do Rudolf Steiner – um texto que aborda o lado espiritual do homem e em quê e como se engaja o trabalho manual dentro do seu desenvolvimento.

No segundo encontro trabalhamos mais. Todas nós trabalhamos – tricô, crochê, tecelagem, costura… Levamos mais tempo nisso do que esperávamos, depois lanchamos – todas colaboraram com pratos, e aí fomos ao texto. O texto foi sendo lido e aos poucos colocávamos o que era de nossa experiência pessoal na roda, para enriquecermos a leitura. Todas nós há tempos fazemos parte de um meio que lida com estas questões – a pedagogia Waldorf, a educação de crianças, a realização de trabalhos manuais, estudar Rudolf Steiner.

De repente o texto saiu do centro e nossa discussão começou a tomar uma forma diferente. Construíamos uma forma de pensamento a respeito das nossas experiências anteriores. Misturávamos nossas angústias, esperanças e planos com traumas e mágoas. Comecei a perceber que a nossa volta ia se formando um tecido também como se formavam tecidos através de nossas mãos. Percebi que havia ali não só muitas verdades – porque a memória traz mesmo as verdades segundo a percepção de cada um, mas havia também pontes apoiadas no presente e apontando para o futuro. Pontes criadoras somente porque estávamos trocando palavras, porque somos mulheres, porque carregamos tarefas nas nossas biografias.

Percebi então que um círculo de senhoras pode por fogo na cidade, derrubar muros, construir casas, transformar gerações, julgar e condenar a fogueira. Descobri que somos capazes de abençoar o mundo ou de amaldiçoá-lo com duas horas de frouxa aplicação. O tecido que formávamos teve a dureza de uma malha de ferro para a guerra, que tivemos que ir melhorando sua maciez e beleza aos poucos.

Percebi que é preciso agradecer o ideal maior que nos reúne. Não fosse ele, teríamos incendiado a casa.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.