Brinque

31 janeiro 2014, Comentários 0

brincandoA coisa mais interessante que existe é a exigência da nossa comunidade em que a gente seja sério, em que a gente fale somente o que é útil, em que não nos movimentemos com exagero – a responsabilidade da vida adulta! Terminamos todos nos cuidando nas nossas palavras e nos nossos movimentos. Tornamo-nos taciturnos e ranzinzas e isto tudo é uma resposta àquela exigência de sermos adultos sérios. Mas isto cansa e é difícil ser feliz cumprindo com as ‘normas’ da comunidade.

No entanto a gente quer ser feliz. E queremos tão loucamente a felicidade que vamos pegando receitas e listas do que fazer e do que deixar de fazer. Temos que fazer exercícios para ficar magros e comer carne branca por conta do colesterol, temos que estudar para passar no vestibular e depois estudar para nos formar e ganhar muito dinheiro. Temos que nos casar na igreja e levar os filhos para a escola e, em todas as reuniões, temos que dar o testemunho desta vida séria que levamos.

Lá pelas tantas nos sentimos mal. É a idade! É o coração, a pressão alta. Ou senão achamos que nossas escolhas anteriores não foram as melhores e cogitamos se não deveríamos simplesmente largar a mulher e ir namorar as meninas. Vamos nos perdendo de nós mesmos, da nossa experiência pessoal do que seria viver. E aí, bom, daí sim é que encontramos a verdadeira receita para não ser felizes. E isto somente porque nos afastamos do que está presente!

E aí nós nos ressentimos quando encontramos aquela pessoa que para todas as coisas tem uma brincadeira, que brinca até com a  morte ou a desgraça, que está completamente viva em cada reunião, presente em todas as palavras que diz, que dá uns saltinhos, que faz caretas, que muda a voz para fazer um personagem, que desconstrói aquilo que nós, tão cuidadosamente vimos construindo: a seriedade.

No entanto o conceito da palavra seriedade está velado! É sério ver o outro lado das coisas, explorar o corpo e as relações. É sério dar novo sentido ao sentido comum e rever o que está engessado.

É preciso soltar as amarras para brincar mais. É preciso conseguir sorrir mais e na hora boa, com espontaneidade. É preciso desconfiar mais das regras e olhar para elas com mais humor. E eu não estou falando de deixar de cumprir horários e metas, não estou falando de abandonar compromissos, não!

É assim que existem as contas e as datas e a fome. É assim mesmo que a gente precisa mudar o mundo de hoje para a manhã e não é brincadeira o que se tem que transformar e reformar e revolucionar. Tudo isso é verdade. Mas não é possível fazer tudo isso se a gente ainda estiver dentro de uma armadura e carregando bolas de ferro!

É preciso olhar com olhos novos e fazer gestos originais e não aprendidos. É preciso descobrir até onde as palavras podem ir e se é possível além delas cantar. É preciso tentar todas as palavras e todos os modos de dizê-las. É possível descobrir todas as personagens e brincar de ser qualquer uma delas. E tê-las disponíveis para viver sempre o novo. É preciso também saber chorar tristezas de forma única e legítima, sem ter que usar a pontinha do lenço para enxugar lágrimas convenientes no canto do olho ‘porque é assim que deve ser’.

Invente o que vai ser do seu corpo, do seu rosto. Existem todas as possibilidades! Experimente-as. Descubra como é ser o que você não tem sido. Sua vida nunca foi vivida antes, por ninguém. Brinque e seja feliz!

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.