Biografia Humana - uma introdução

24 abril 2014, Comentários 1

John William Waterhouse LamiaJá viu um estouro de gnus na televisão? É extraordinário! Somam uma massa de corpos independentes, mas que estão lá, todos juntos em um só movimento. Observando esta massa não nos ocorre que cada um tenha uma biografia. Os gnus individuais não descrevem um caminho biográfico, mesmo. Nós sabemos como nascem, crescem, comem e morrem. Conhecemos seus meios de reprodução e sabemos em que parte da cadeia alimentar eles estão. Mas isto não é propriamente ‘biografia’.

Podemos da mesma maneira observar uma rua movimentada da cidade. Talvez um número muito grande de pessoas esteja ali carregando suas sacolas, seus filhos pela mão, entrando e saindo dos prédios. Se olharmos para estes rostos notamos que são completamente distintos entre si – todos humanos, cada um vivendo uma vida absolutamente única e original.

Ninguém é capaz de reproduzir a vida de outra pessoa porque existem vários detalhes que as individualizam: os pais e o meio, por exemplo. Além disso, cada um vai com sua própria vontade determinando os caminhos que deve seguir: faço um vestibular agora ou viajo para conhecer a Irlanda? Cada mínima decisão deve configurar um caminho diferente.

Mas a gente não enxerga as biografias passando na rua. Elas acontecem no tempo, se espremem entre o momento em que nascemos e o momentos em que morremos. Só existe biografia enquanto temos um corpo físico.

Tudo bem, você pode mencionar as noites em que abandonamos nossos corpos ou falar da missão que cada ser humano tem que atravessa muitas vidas. Mas esta biografia a que me refiro agora é aquela que um ser humano descreve entre o período de nascimento e de morte.

Pensem em Nelson Mandela. Um homem extraordinário. Compôs uma biografia extraordinária, digna do homem que foi. Podemos apreciar sua biografia com minúcias de detalhes. Inspiramo-nos nela, o que seria aliás, um benefício para aqueles cuja biografia já corre há anos e que tem a vontade dirigir seu destinos.

Olhando para a biografia do Mandela notamos algo também de particular: acabou-se! Trata-se agora de uma obra acabada que se realizou no tempo qual música. E hoje ainda ressoa em harmonias por aí, mas ela mesma está acabada. Podemos ler a ‘partitura’ que foi escrita, de cabo a rabo. Mas ninguém poderia vivê-la novamente. Ela é absolutamente particular.

A biografia do Mandela é tão inspiradora, que fico tentada a contá-la aqui. No entanto  ela está registrada por toda a parte. Há inúmeros sites que descrevem trechos e filmes também que se podem assistir. Belíssima! Recomendo a cada um que vá atrás. Nela adivinhamos a força moral de um homem que abdicou de anos de sua própria liberdade pela liberdade coletiva. Brilhante como seja esta biografia, ela não é a mais importante biografia do mundo. A mais importante é a sua.

Sim, porque ela está acontecendo agora e tem todas as possibilidades adiante.

Há uma história muito significativa no livro ‘O Aleph’ de Jorge Luis Borges ‘A História do Guerreiro e da Cativa’.  Neste conto Borges relata o encontro de sua avó com outra moça, também inglesa que havia sido raptada por índios quando da chegada da sua família em Buenos Aires.

O que poderia ter acontecido a ela? Um resgate, e ela teria se casado com um rico nobre inglês e frequentado por anos as senhoras da sociedade. Uma fuga e, quem sabe a morte. Poderia ter-se tornado uma professora e alfabetizado a aldeia inteira! Muitas possibilidades e qualquer delas desenvolveria um caminho absolutamente diferente. Uma biografia completamente nova.

A avó de Borges se compadece da figura rústica diante dela e lhe oferece resgate, mas a moça simplesmente se recusa a voltar. Ela está feliz e bem em um mundo brutal e não civilizado. Ela percebe a diferença incomparável com o destino que teria se continuasse a moça inglesa dentro de sua família e assume este destino por escolha. (Ah, perdoem-me os ouvintes de ontem por ter abrilhantado o destino da moça! Foi a força da imagem).

A biografia tem um tempero entre as coisas que nos aparecem pela frente e as decisões que tomamos a respeito. Além dos eventos, há as pessoas que nos aparecem e o que importa mesmo é o modo com que nos relacionamos com elas. Há que definir o caminho que tomam os encontros e determinar como serão feitos os laços.

Um Eu determinado pode com bastante lucidez planejar sua biografia, olhar adiante, escrever o que quer viver. Uma pedra, uma planta ou um animal não tem esta característica. Compartilhamos com eles termos todos um corpo físico. Com plantas e animais, também um corpo vital – aquilo que nos faz crescer e regenerar-nos. Somente com os animais compartilhamos o fato de termos um corpo astral – o corpo dos sentimentos. Mas ao homem é dado ter um impulso fogoso de direcionar a própria vida. E isto é dele, exclusivamente.

Outra história inspiradora é a história de Parsifal – da busca do Graal. Nela se desenha um caminho em que Parsifal vai passo a passo se assenhorando desses corpos. Para isso é preciso fazer laços: O primeiro com os pais que vão garantir ao filho o corpo físico. O segundo com um tutor que perceba o temperamento da gente de forma a dominarmos nosso corpo vital. O terceiro é nosso esposo que vai nos auxiliar o domínio sobre o corpo astral. E, finalmente, um guia espiritual, um inspirador que nos auxilie a elevar nosso Eu a uma fonte mais alta e nobre.

É preciso paciência, dedicação, equilíbrio. É preciso observar os impulsos de cada época da vida. É preciso o investimento de uma e de diversas vidas para que a gente tome para si a escrita do próprio destino, e tudo para que a gente seja melhor, para que a gente não seja somente parte da manada.

(Espero ter conseguido trazer o fundamental da palestra para dentro do texto. Se não foi assim, que falem as testemunhas!)

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Clarice Priscila Puccetti

    Talento de professora para abordar um tema .gostei ….