As vidas que você não quis.

17 junho 2013, Comentários 0

Mapa do PeabiruVocê já deve ter ouvido gente dizer que a vida passa rápido demais. Que quando você vê, já foram 20 anos. Na verdade, 20 anos é pouco. Passam 20, 30, 40 num átimo, e você sente que deixou uma quantidade enorme de coisas por fazer. E deixou, mesmo. A gente faz escolhas todos os dias. Não quero ir por esta rua, não vou pegar este ônibus, não vou namorar esta menina, não vou fazer este teste. É preciso dizer muitos mais ‘nãos’ do que ‘sim’ para viver a vida. E como tudo, o ‘não’ traz consequências. Como trouxeram consequências os ‘sim’ que a gente disse.

Sempre eu penso que se em certo momento da vida eu não tivesse dito não eu teria vivido outra vida – outras vidas. Em qualquer momento, na verdade, a cada minuto. Como exemplo, pense quando você estava fechando o ensino fundamental e te perguntaram o que você ia fazer no ensino médio. A vida corria com a velocidade de sempre. Morna, talvez. Talvez aos 13, 14 anos você olhasse comprido uma mocinha da sua escola, da sua vizinhança. Ou talvez um menino ou um rapaz mais velho. Você está meio dormindo na vida neste ponto e resolve tentar um curso técnico. Pronto! Está determinada uma virada na vida.

Naquele tempo você tinha muitos medos, muitas preocupações, muito potencial de vida não vivida que ainda iria acontecer. Você nunca falou com aquela tal pessoa. Se tivesse falado talvez ela não tivesse desaparecido da sua vida. Talvez vocês tivessem ficado juntos. Talvez ao invés destes filhos que você tem hoje você tivesse outros, outras pessoas que teriam laços com você e com esta outra pessoa que na verdade nunca foi nada na vida que você vive agora. Nada mais do que um anelo da adolescência.

O que eu acho interessante é que a vida de hoje não é menos boa do que as outras que a gente não viveu. Em um mapa no tempo você poderia riscar o caminho da sua vida de agora. Ir marcando os ‘sim’ da sua vida – há uma quantidade de ‘nãos’ para cada ‘sim’. Fazer um curriculum vitae de verdade. Obviamente que você não poderia ter casado com cinco pessoas. Não poderia ter tido mais de um filho no mesmo momento nem ter feito todos os cursos interessantes ao mesmo tempo. E cada vez que a gente faz um curso, tem um filho ou casa a gente está em uma fase diferente da vida – isto é um complicador, um tempero que nos faz outros ao casar pela segunda vez ou ter outros filhos.

Imagine que se você resolver ser solteiro, jamais poderá ser casado. É assim que as escolhas funcionam. Uma vida somente a gente pode viver. Só uma.

Se prestar atenção ao caminho que trilhou você enxerga as escolhas. Talvez isto pudesse estar riscado em um fio vermelho numa grande folha de papel, ou numa parede: um mapa. Mas se você fosse a cada ‘nó’ de escolha e colocasse as outras possibilidades em cinza, você veria desenhados inícios de outras vidas. As oportunidades de viver o que você vive hoje estão distribuídas ao longo da sua vida de acordo com as pessoas que você permitiu que viessem estar no seu caminho.

Nunca você poderia viver a amizade que tem com a vizinha da esquina se, há vinte anos, você não tivesse escolhido ir a um tal restaurante com um grupo da escola onde você conheceu uma moça com quem você se mudou para Minas Gerais para fazer um curso. Abriu uma loja, para o que teve que viajar e nesta viagem conheceu uma pessoa por quem você se apaixonou e mudou-se para o lugar onde você mora hoje. Há dez anos então você torceu o pé na rua e uma vizinha que você não conhecia ajudou você a chegar em casa, pôr uma bolsa de gelo no tornozelo, e aí nasceu esta amizade.

Sempre me ponho a sonhar as vidas que não vivi. Muitas vezes tenho a oportunidade de encontrar pessoas destas encruzilhadas da minha vida. Isto é muito bom. Pode-se projetar a sua vida enlaçada com esta pessoa e imaginá-la nas suas complexidades: você não moraria onde mora, não usaria as mesmas roupas, não teria os mesmos amigos. E isto não seria ruim, seria diferente, somente.

Portanto, embora não haja mesmo nunca a possibilidade de se viver o que não se viveu. Nem haja como retomar nada. Podemos viver para frente, a partir do agora. A pessoa de 30 ou 60 anos que você é hoje não se reconheceria se tivesse feito outro caminho. As experiências únicas que a gente tem nos conformam como somos. E a partir deste agora você pode fazer tudo – e contando com todas as vivências que já teve pelas escolhas que fez na sua vida.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.