As Leis e a Criação

28 fevereiro 2013, Comentários 0

universo

 

Eu refletia nos limites do mundo, do Universo. Para nós, humanos, o Universo é tão vasto que escapa a nossa mente cotidiana. Não concebemos o Universo, mal imaginamos as descrições que aparecem aqui e ali sobre seu formato, mas nos cabe bem a ideia de que ele é infinito. Pode não ser infinito. Podemos falar de Universo como quem trata somente do que está manifesto em estrelas, planetas e outros corpos. Mas além do Universo, se ele tem fim, fica um espaço dentro do qual ele está.

Criança ainda eu me batia com esta ideia – porque no fim das contas, nada pode ser infinito. E fui imaginando andar e andar tanto que chegasse ao fim do universo. Imaginei um muro grande, altíssimo, intransponível para uma pessoa como eu. Olhei para a muralha a minha frente e tentei imaginar o outro lado. Um muro tem que ter outro lado. Pode ser grosso, grossíssimo, mas tem que ter um outro lado. E eu consegui me ver do outro lado em pensamento. Prestei atenção a mim mesma diante do outro lado da muralha que cercava o universo. Ele não era infinito. Eu concebia uma muralha que o cercava. Mas, se eu estava diante da muralha, eu estava em um espaço, também. Foi a percepção deste espaço que me fez enxergar a infinitude.

Depois refleti sobre o que havia no espaço. Aquilo que eu podia ver com meus olhos era a terra onde eu pisava e o céu, de dia e de noite. Sol, lua, estrelas, alguns planetas, eventualmente estrelas cadentes e nada mais. De fato eu não podia dizer muito do céu. Para mim o céu tinha a ver com o tempo, e nós humano nos organizamos segundo as passadas que os astros dão no céu.

Olhei mais atentamente para a terra e percebi que a pouca distância me facilitava a exploração – o que me fez desconfiar de que aproximar-me dos corpos celestes me faria descobrir também detalhes semelhantes aos que eu encontro na terra – Debrucei-me a examinar tudo: as plantas, com troncos, folhas, sementes, cada uma com formas repetidas em ramificações e planificações. Depois conjunções e grumos. Elas podem formar grupos, florestas, com esta organização. A derivação de cores, a repetição de padrões, de texturas.

É possível pensar em qualquer coisa e ir abrindo esta coisa, para mais e para menos: um livro pode ser visto sozinho e se ver a composição dele etc, ou ver que compõe um tipo especial, ou uma biblioteca.

Talvez seja impossível nomear todas as coisas manifestas para exemplificar, mas eu pensei além: se tudo já está criado, a nossa vida é monótona. Tudo já está aí! Só que eu não acredito nisso. Veja, é possível criar formas novas a toda hora, é possível fazer uma casa original, ou outro tipo de morada; roupas ou cobrir-se de outra maneira; e a arte é uma porta aberta! A língua, inesgotável.

Mas tudo vai ter sempre aquele trilho para seguir: para a arte, ou são os olhos que vão apreciar, ou os ouvidos. Casa, por mais original, é casa. Roupa é roupa e não tem como escapar. Língua tem a gramática que lhe é própria. Pode-se até brincar com ela. Inventar palavras, mas isto tem que obedecer a certos parâmetros. A nossa criação obedece a certas determinações anteriores, a certas leis.

Mas se há leis para a criação de todas as coisas por nós, ainda que originais, também eu posso reconhecer que para o que já está criado existem leis. Leis de formação, de disposição, de desenvolvimento, de relação. Por exemplo, tudo o que é vivo vai-se relacionar com o Sol de alguma maneira, e precisa de manutenção, de reproduz-se de algum jeito. E há leis para tanto.

Quanto a nossa criação, podemos fazer nascer muitas coisas. Podemos conceber muitas coisas, mas precisamos adequar a leis. Então, quando uma pessoa se pergunta de si mesmo, quanto ao que ela é – tanto no que é tangível quanto no intangível, deveria seguir as pistas de leis. Precisamos nos observar. É o que temos a mão, afinal. O que dali para mais e para menos vai haver está já determinado por leis que deveríamos pesquisar.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.